terça-feira, 7 de junho de 2016

Geladeiras sem luz

Ja bem no inicio do seculo XIX iniciou-se uma industria de fornecimento de gelo a partir do nordeste dA Matriz, mais especificamente da Nova Inglaterra, para os estados mais ao sul e entao para os paises do Caribe. Na Europa o exemplo foi copiado pela Noruega em menor escala, e um negocio planetario estabeleceu-se e cresceu constantemente. Consta que em 1880 o morador urbano medio dos Estados consumia uma tonelada de gelo por ano.

Com isso, ja no comeco do seculo XX estavam estabelecidas redes de distribuidores urbanos de gelo e, nas casas, as chamadas ice boxes ou geladeiras, caixas desenvolvidas para armazenar o gelo e onde colocar-se alimentos. Consistiam essencialmente de um movel com paredes duplas, de madeira por fora e internamente de metal (zinco ou estanho, geralmente), com o oco preenchido com um isolante, mais usualmente serragem, maravalha de madeira. Eventualmente tornaram-se, de simples caixas, em moveis com porta, contendo no alto um compartimento onde colocar o gelo e outro, ou outros, abaixo e/ou ao lado onde colocar-se os alimentos e bebidas que se desejava manter a temperatura mais baixa. A agua do degelo era coletada em um tubo e drenada para o exterior, por uma torneira, ou para uma vasilha ou bandeja de evaporacao, ou nos lares mais abastados drenado para o esgoto.

Os moveis, de inicio bem simples como o modelo noruegues ilustrado `a esquerda, foram evoluindo, passando a ter uma porta frontal para o gelo ao inves do alcapao superior e eventualmente tornando-se moveis de alto esmero, com ricas ferragens e eventualmente incluindo mesmo interior aloucado...



Tambem la pelo raiar do sec.XX, Germano Steigleder Sobrinho resolveu fabricar essas geladeiras na sua entao industria de carpintaria — originando o que viria a ser, aqui no portinho, uma das primeiras fabricas de eletrodomesticos de pindorama e que perduraria ate os 970 quando foi submergida pelas, mm, peculiaridades da politica economica entao exercida pela ditadura.

Sob a marca Steigleder foram produzidos inumeros exemplares em variados modelos desses moveis para refrigerar alimentos e bebidas `a base de gelo. Um desses modelos, como mencionei, inclusive foi parar na casa de meus pais, do qual guardo vaga, esfarrapada memoria...


Agora entao, querendo aproveitar as ferragens mencionadas na postagem anterior para tentar construir uma replica de uma dessas maquinas de antanho, ocorreu-me solicitar o auxilio de Tio Gu e sua cornucopia de informacoes para reavivar aquela memoria.

Encontrei imagens de modelos simplesinhos, de porta unica e de 'carregar' por alcapao no topo, construidos com pinho (Araucaria), uma madeira entao tao barata quanto agua, outros mais refinados em madeira de lei, outros ainda com duas portas, todos seguindo, como era de se esperar pela ascendencia do fundador, muito mais as linhas enxutas dos modelos europeus do que os requintes dos Grandes Irmaos.

Sem enfeites, em pinho

Mais elaborado. Em imbuia? Ou itauba? Ou...?

Em pinho, com duas portas e torneira para drenagem

Duas portas, com bandeja de evaporacao entre os pes. Pinho?
Mais adiante encontrei imagens de um modelo restaurado de duas portas semelhante ao acima, mas mostrando inclusive o interior com suas placas de zinco e as prateleiras de arame no compartimento inferior.






























Indiscutivelmente a cor e os detalhes do compartimento inferior eram, nao exatamente iguais mas, bem semelhantes ao que minha memoria guardava da geladeirinha da minha infancia. Mas, nitidamente recordo, aquela era de uma unica porta e de 'carregar' por cima, com tampa em alcapao.

Mais umas conversas com Tio Gu e acabei encontrando o exato modelo. Todavia quem resolveu restaurar o pobre movel optou por reproduzir nele as pinturas que no inicio do seculo eram empregadas para propagandear nA Matriz o mais famoso dos refrigerantes de cola.

A cor um pouco 'amainada'

A cor original
Para mim... Sacrilegio!

E de doer nos olhos, tanto que manipulei a imagem para arrefecer um pouco a vermelhidao e permitir ao menos alguns detalhes da superficie ficassem mais visiveis. Mas, com toda a certeza, e' o exato modelo da minha casa de guri, exceto por as ferragens serem douradas, ao inves de niqueladas como no original.

(Apesar do 'pecado' na pintura, fico grato ao Cristian Michielin, o artesao catarinense que restaurou o movel e que inclusive disponibilizou um video no YouTube mostrando o antes e o depois:
https://www.youtube.com/watch?v=sh6mMxRgfFc )



Mas se minhas costas machucadas justificam o longo periodo em conversas com o Tio, e tudo, e tal, alguma atividade ha de haver. Entao, criei coragem, cortei e aparelhei um pranchao de itaubao para dar inicio aos trabalhos e fiz a tao adiada como necessaria limpeza na 'oficina'.


`A esquerda na foto, as madeiras aparelhadas; `a direita os sacos da limpeza. O mais claro, de 100 litros, com o lixo, o mais escuro, de 50, com as maravalhas das plainas, guardadas porque possivelmente minha cadela vai ter ninhada ainda no inverno, o frio por aqui esta bem acima da media e maravalha — como o pessoal que lidava com gelo sabia bem — e' um excelente isolante para 'atapetar' o ninho dos eventuais cusquinhos, quando chegarem.

quinta-feira, 2 de junho de 2016

Lumbago, e velha e nova dividas

A conclusao da mesinha feita para completar o ambiente do que passei a chamar de "antro das madeiras", cuja construcao relatei nas postagens imediatamente anteriores a esta, teve um efeito colateral deveras desagradavel...

Quando terminada, sem os vidros do tampo o movel ficou pesando ao redor de uns 30-35 quilos. Transportei-o sozinho, em bracos, desde a oficina ate o "antro" e, quando coloquei-lhe os vidros e fui dar uma ultima examinada nos detalhes antes de povoa-lo com as pecas que formam meu, mm, arquivo de aprendizado, reparei que o polimento da cera ainda deixava bastante a desejar. Com o que, voltei `a oficina e trouxe um par de furadeiras e boinas para bem acabar a obra.

O detalhe e' que aquela e' uma mesa baixa. Medi agorinha: 45cm de altura o tampo e 21cm a prateleira sob ele, esta ultima evidente que o principal alvo do polimento adicional. Polimento que me consumiu uma boa meia hora — porque se ha algo que praticamente obriga a gente a caprichar e' polimento, atencao aos minimos detalhes, agora mais um pouquinho, e tudo, e tal...

O problema foi que, absorvido e embalado pelo canto das furadeiras e o resultado das boinas, simplesmente esqueci dos anos sobre meus ombros. Lamentavel, muito lamentavelmente... os anos nao se esqueceram de nada. Quando levantei do polimento para pegar os vidros e as pecas que iriam completar a mesa ja notei um nitido desconforto la na base da coluna, uma certa dificuldade em ficar bem ereto.

Nao posso nem dizer que fiquei surpreso com o que se seguiu; nao e' exatamente incomum eu cometer a estupidez de esquecer que meus cinquenta comecaram em outro seculo. Mas dessa vez a coisa apertou. Para dormir naquela noite, e em varias que se seguiram, tive que apelar para analgesicos porrada. Nos dois dias seguintes, quando fosse inevitavel caminhar me socorri de um sarrafo como bengala, e a atividade fisica mais intensa que era capaz de exercer de forma indolor, alem de respirar, era acertar a regulagem da cadeira onde fui morar.

Dez dias depois, hoje e' o primeiro dia em que nao sou continuamente lembrado da minha besteira, (quase) tudo (praticamente) de volta `a normalidade.

Mas para alem das minhas lamentacoes, o que talvez possa interessar a algum de meus sete fieis leitores e', entre as inumeras atividades, mm, intelectuais a que me dediquei enquanto as fisicas estavam expressamente proibidas, uma delas foi deixar o separador de orelhas pesquisando o que eu poderia fazer quando a vinganca fosse possivel na oficina (ta bom, ta bom, depois de fazer a limpeza geral que ainda estou devendo desde que terminei a mesa).

Dai que lembrei: La bem quando havia iniciado minhas (re)investidas em brincar com madeira, para buscar inspiracao e ter no que treinar minhas nascentes habilidades pareceu-me uma boa ideia aproveitar uma oferta que entao a Rockler fez, um belo desconto no plano de montagem e kit de ferragens para construcao da sua replica de geladeira antiga; essa ahi da foto `a esquerda.

O entusiasmo todavia arrefeceu fortemente quando a encomenda chegou. Nao apenas pela complexidade dos planos ultradetalhados e incluindo uma errata disponivel na Rede, mas principalmente pela quantidade de boa madeira que seria necessaria e eu nao dispunha. E, devo confessar, tambem pela intimidadora qualidade das ferragens made in Taiwan. Nao sou avesso a tentar fazer coisa que considero um pouco alem do que imagino ser minha capacidade; afinal, e' assim que se aprende. Mas minha avaliacao ante a excelencia das pecas e o projeto supostamente para nivel intermediario de marcenaria foi... de que eu era um iniciante. Muita areia pra minha carrocinha, em outras palavras.

Dai, o projeto impresso nao lembro exatamente mas talvez, suponho, pode ser que em uma de minhas limpezas de papelada velha tenha considerado eu nunca iria fazer aquilo daquele jeito mesmo e... devo ter enviado o dito cujo para o Arquivo Morto mantido pela Limpeza Urbana.



Ja as ferragens do kit foram embrulhadas e guardadas num canto de armario, para nao juntar poeira. E foi com elas e com a ideia de cumprir o projeto nunca iniciado de uma replica de geladeira antiga que o separador optou por municiar-me para eu me vingar de minha imbecilidade. Ha pouco, fui ao armario, abri o pacote e coloquei os envelopes sobre a bancada. Estava tudo la, o que mostra a foto `a esquerda:

Os oito primeiros envelopes de baixo para cima (mais ampliados na imagem `a direita) contem, tudo em latao polido, uma etiqueta com a marca da geladeira, um abridor de garrafas, tres fechos de portas e tres pares de dobradicas. Os demais envelopes sao ferragens para fixar os prendedores de prateleiras, aquelas coisas compridas — e que nao pretendo incluir no projeto porque prefiro sempre que possivel prateleiras fixas.


E e' isso por enquanto. A madeira proposta no projeto impresso que 'perdi', lembro, era carvalho cortado radialmente. Mas nao pretendo seguir a memoria do projeto original, mas sim furungar as memorias da minha infancia quando tinhamos em casa uma dessas geladeiras que operavam com gelo, sem eletricidade. Hmmm... Lembro era de uma madeira escura e avermelhada, as ferragens prateadas...

Bueno, so que tenho ferragens douradas. Logo, posso usar a madeira (ou bem mais provavelmente aS madeiraS) que bem entender, hehehe.



Mas, claro, antes de qualquer coisa tenho de consultar o travesseiro.


segunda-feira, 23 de maio de 2016

Mesa cereja - no bolo

O passo seguinte na construcao da mesa cereja foi a montagem definitiva do tampo, aplicando cola e pressao com grampos nas emendas, Nos grampos passou a noite e na manha seguinte removi os grampos e os parafusos, liberando o tampo da base. Efetuei os reparos e retoques necessarios, e entao com tupia cortei os rebaixos nos 'buracos' e arredondei os bordos superiores do tampo antes de lixar tudo ate G220. O tampo acabado fez entao uma viagem `a vidracaria para cortar-se os vidros de 6 mm para fechar os 'buracos'.

Ahi, claro, deu samba.

Falei para o vidraceiro quanto ao fato de as aberturas do tampo nao estarem absolutamente em esquadro, muito pelo contrario. "Bobagem. Nao tem problema", disse-me com largo sorriso. Pois e'. Mas tinha, hehe. Ao inves de, como de habito, aguardar os vidros serem cortados na propria vidracaria, acabei voltando para casa porque... "e'... vai levar um tempinho, preciso fazer com calma".

Em casa, aproveitei para finalizar os retoques na base da mesa e aplicar-lhe mais uma fina demao de oleo de tungue.

Mais tarde, busquei o tampo e os vidros na vidracaria, tornei a aparafusar o tampo na base, agora com os parafusos definitivos, supostamente `a prova de oxidacao. Cortei tampas para os furos dos parafusos nos pes em eucalipto cidro (sim, descobri qual a madeira dos pes, hehe), em marfim mara para os do tampo e fiz umas cavilhas em imbuia para aplicar nas emendas do tampo — como reforco contra possivel movimentacao das madeiras coladas com veios cruzados, sim, um pouco, mas muito mais como decoracao, hehe.

Nova aplicacao de lixa G220, uma demao de oleo de tungue no tampo, e o movelzinho estava pronto para ser lustrado com goma-laca.



Ahi o velho Pedro, que me havia brindado com dias de sol e baixa umidade, achou que era esmola demais. Pimba! Chuva, garoa, cerracao, neblina, tudo o que goma-laca gosta... Dois dias disso e enfim a umidade relativa baixou de 100%. Antes que o velho implicante aprontasse outra agradavel surpresa disparei o processo de lustracao, varias demaos de goma-laca decerada e clarificada seguidas de cera feita em casa.


Ahi, foi botar a cereja no bolo, hehehe...







terça-feira, 17 de maio de 2016

Mesa cereja - um pouquinho torta

O passo seguinte na confeccao da mesa cereja, claro, era fixar a prancha de cedro com bordos naturais aos pes. O problema aqui era o fato de a prancha nao estar aparelhada, apresentando variacoes em todas as suas dimensoes e, obvio, nenhum lado reto. A solucao indicada pelo meu grande conselheiro foi conseguir uma, pelo menos uma, referencia confiavel, e a referencia apontada foi tracar a linha de centro da prancha.

A linha central da prancha marcada em ambas as faces serviu como referencia para fixar uma regua e, usando dois esquadros e um compasso nao foi dificil marcar e entao cortar entalhes esquadrejados onde encaixar e entao fixar com parafusos os pes da mesa `a prancha.

Utilizando grampos para fixar os pes nos seus lugares e niveis para acertar prumo e nivel, depois de aplicar cola PUR nos encaixes mandei ver os oito parafusos. Notei, quando alguns parafusos 'chamaram'— no aperto final, a parafusadeira estalando a embreagem — algum movimento houve nos pes. Uma conferencia rapida no entanto, e tudo estava em ordem, reto, alinhado, nivelado, no prumo.

Uau, aleluia! Toda gloria ao Santo Travesseiro! Olhando a coisa depois da remocao dos grampos... nada mau, hein?

Todavia, conhecendo bem as artimanhas do Murphy — e, sinceramente, sabendo que eu nao tenho essa bola toda, hehe — eu ja imaginava aquelas mexidinhas na hora do aperto final dos parafusos nao iam ficar de graca. Revisando minuciosamente o resultado sem o atravancamento dos grampos e com a cola seca, reparei os angulos fugiam do reto. Pouca coisa, par de graus aqui, um e meio ali mas, reto, reto nao, nao estavam.

Mas, convenhamos, ninguem vai analisar no dia a dia uma mesa com esquadros e niveis, nao e' mesmo? E, tudo bem, talvez ate haja alguem com olhos capazes de detetar desalinhamentos de um a dois graus. Mas, aos olhos do meu cliente a coisa ate que estava muito boa, hehehe.

So que sei bem, se os olhos se deixam enganar, a madeira nao. E eu tinha ainda de construir a moldura para o tampo, e aqueles poucos graus certamente iriam causar desencontros nas juncoes, frestas que ate um cegueta iria ver a dezenas de metros.

Minha ideia original era construir a moldura do topo separada da base e depois de pronta aparafusa-la no cimo das pernas. Com os desalinhamentos no entanto, esse metodo seria receita garantida de cacaca! Resolvi entao que iria construir a moldura no lugar, sobre as pernas, sem esquadro e tirando as medidas pelas proprias pecas, e tomara que os demonios todos tenham ido dormir.

Assim, aparelhei e dimensionei os lados longos da moldura em duas ripas de marfim-mara e, apoiando as ditas cujas sobre as pernas, marquei e entao cortei nelas um rebaixo raso nas areas de contato. Com isso, consegui um posicionamento estavel para as laterais e, variando profundidade e angulo dos rebaixos conforme a necessidade, pude garantir as pecas ficassem bem niveladas. Uma vez garantido o nivel, fixei as laterais `as pernas com parafusos. Hora de posicionar os lados curtos.

Sabendo que os lados curtos nao ficariam exatamente esquadrejados, uma serie de possiveis encaixes foram descartados a priori. O metodo que me pareceu mais eficaz para fazer emendas consistentes — e fora de esquadro — foi copiar a tecnica muito utilizada pelos irmaos Greene do encaixe de caixa com tres dentes, com o malhete macho nos lados curtos.






Fiz os cortes para os malhetes empregando a serra fita. Nas femeas, retirei o segmento do meio, com bedame. Nos machos, serrei fora os segmentos laterais com serra manual. Para marcar angulos e profundidades fiz uma primeira marcacao fixando as laterais longas com os parafusos e posicionando as laterais curtas no lugar que desejava e marquei as posicoes com lapis. Cortei os malhetes femeas por essas marcacoes, voltei a fixar as laterais longas nas pernas e tornei a conferir angulos e posicionamentos para as laterais curtas, marquei e entao cortei os machos por essas marcacoes.


Como talvez seja mais facil entender vendo as fotos abaixo...

Cortando o segmento central de uma lateral longa, com bedame

O segmento central removido de uma lateral longa

Uma lateral curta colocada sobre uma longa para conferir posicao e angulos, antes de cortar os segmentos laterais
para formar a espiga da ensambladura

A pequena diferenca de angulo; a linha mais escura o angulo desejado, a linha mais clara o angulo reto

O encaixe feito. Note-se a pequena diferenca de angulo
representaria uma indisfarcavel fresta


Na porcao central da moldura foi posicionada uma trave fixada com um encaixe 'quase' a meia madeira, passante. (Por razoes esteticas eu originalmente tinha pensado em utilizar espiga e fura passante, mas estruturalmente a opcao final me pareceu mais apropriada.).


E com isso a estrutura toda da mesa foi completada e efetuei uma primeira montagem seca, o que ja da os ares do aspecto final do novo movel...


Bueno, agora partir para a montagem final, a colocacao do tampo na moldura, os aderecos, o refinamento fino do acabamento, incluindo correcao/tapeacao dos erros que ainda permaneceram visiveis, e tudo, e tal.

Qualquer bathora dessas...


quinta-feira, 12 de maio de 2016

Mesa cereja - devagarinho

(Como sempre, clique nas imagens para ve-las em maior resolucao.)


Com a ideia do design na cabeca e com a prancha de cedro tendo recebido duas demaos de oleo de tungue, o proximo passo na elaboracao da "mesa cereja" era fazer as pernas. Para tanto, mais por sua espessura do que pelo formato, resolvi aproveitar a madeira das pernas da antiga mesa que tinha desmontado.


Iniciei o tratamento do lenho utilizado na confeccao das pernas da mesa velha determinando, a olho, um novo angulo em que os pes deveriam-se postar e entao dimensionando sua altura. Isso feito empregando serra manual, utilizei o desengrosso para remover o antigo acabamento das faces planas das pernas. A madeira que se revelou nao sei qual e'; a coisa mais parecida que ja vi foi jequitiba mas... De qualquer maneira a cor, a textura e os desenhos foram uma surpresa agradabilissima.

Isso feito surgiu a primeira grande duvida: como 'casar' as pernas com a prancha? Uma consulta ao travesseiro aconselhou abrir com a serra de fita um 'dente' nas pernas, onde a prancha iria se apoiar. Meio a olho, meio aproveitando o desenho das pernas marquei e cortei em uma das pernas um recorte e confirmei sua funcionalidade como apoio para a prancha.

Confirmada a funcionalidade, enquanto transferia para as outras tres o desenho do recorte, lembrei um detalhe crucial. Como mencionei, a prancha de cedro com bordos naturais nao foi exatamente aparelhada; suas faces receberam apenas um alisamento minimo e, embora relativamente sem empenamentos de monta, a peca apresenta variacoes significantes de largura e de espessura. Ou seja, se fizesse todos os dentes nas pernas na mesma exata posicao a prancha certamente nao ficaria devidamente horizontal e, muito provavelmente, nem totalmente apoiada. Como resolver isso redundou outra consulta ao travesseiro, hehe...

Terminei por colocar a prancha, apoiada no unico dente ja cortado e em apoios com altura variavel (restos de madeiras de diversas espessuras, hehe) de tal forma que conferindo com niveis ficasse o mais horizontal possivel, e entao marquei nas tres outras pernas a altura em que deveriam ficar os dentes — o que tentei ilustrar nas imagens acima. Na foto `a esquerda, a seta verde aponta a marcacao do dente tirada da prancha, a seta vermelha mostra a tendencia dos pes de alterar o angulo do apoio com o peso da prancha, o que foi corrigido, e' claro, antes de fazer as marcacoes. Na foto `a direita, os dois niveis que foram empregados para estabelecer a horizontalidade da prancha, visiveis igualmente no plano de fundo da primeira imagem.

Todos os quatro dentes cortados, a prancha foi apoiada sobre eles sem os apoios e — ta-daa! — ficou horizontal.


Com o que, surgiu outra duvida: como fixar a prancha `as pernas? O que, claro, ocasionou outra consulta ao travesseiro, hehehe.

E o que, por varias razoes com as quais nao vou aborrecer meus sete fieis leitores, me pareceu a melhor opcao foi empregar parafusos atraves das pernas. Assim, o passo seguinte foi abrir furos onde colocar os parafusos. Para tanto risquei direto nas pernas — nas quais ja havia arredondado os bordos com tupia — os angulos que imaginei adequados e tasquei as brocas.

Na imagem `a esquerda pode-se ver as pernas ja 'tupiadas' e com os riscos a lapis marcando os angulos e, na da direita, os furos ja abertos. As linhas claras no acabamento? Ocasionadas pelo rolamento da fresa. As, mm, variacoes no posicionamento dos furos? Ocasionada por minha inexperiencia no metodo causando a necessidade de — cof, cof — certas correcoes de curso, digamos assim. Esperancosamente, imagino ao fim e ao cabo nao va ficar algo muito horrivel. Veremos...


O passo seguinte foi dar acabamento fino `as pernas com (argh!) lixas ate G150, no processo removendo toda, ou praticamente toda, a tinta que restara.

As pernas totalmente lixadas. Nao sei qual seja, mas linda madeira, nao?



Com as pernas totalmente usinadas e lixadas, hora de aplicar-lhes o preacabamento protetor, inciando com cupinicida e, entao, duas demaos de oleo de tungue.

Enquanto seca o oleo, vou aproveitar o par de dias para voltar a consultar meu mais confiavel conselheiro quanto ao proximo passo...

Enquanto isso, fico apreciando a inesperada e alegrissima surpresa do visual que a madeira das pernas ocultava sob as tinturas que lhe haviam aplicado...

A aparencia das pernas, molhadas de cupinicida...
Mais... quando houver.

terça-feira, 10 de maio de 2016

Mesa cereja

Com o terceiro companheiro do balcao das cavilhas tendo ido para a parede concluindo minha proposta de trocar por novos todos os moveis da casa infestados por cupins, restou um problema: o espaco na peca restou atravancado pela presenca da mesa e cadeiras que aparecem na foto abaixo em primeiro plano. A solucao para o problema, retirar a mesa, estava ja prevista a algum tempo, para ser executada tao logo concluida a substituicao.



Previsto... e feito.

Com a remocao da mesa, as tralhas que estavam sobre ela — um, digamos assim, memorial de meu aprendizado na lide com madeiras — foram realocadas temporariamente sobre varios outros moveis, e a primeira vantagem surgiu, nitida: nao apenas o espaco ficou muito mais, mm, transitavel, ventilado, acessivel, amplo, como os moveis novos ficaram com muito, muito melhor visibilidade, como tentei evidenciar com as imagens abaixo.





A velha mesa nao encontrou interessados em te-la como tal — algo compreensivel, ao constatar-se foi uma construcao bem, mm, simplificada; em todas as juncoes, emendas e colagens, fixacao com pregos e, exceto nas laterais das saias onde foi aplicado cedro gaucho como decoracao, foram empregadas madeiras de qualidade inferior, colorizadas com stain. O tampo, todo em compensado com laminacao de cedro. Nada cobicavel, ve-se.

Assim, foi utilizada para eu treinar meus dotes de desmontagem, hehe, e suas partes — mostradas ahi na foto `a direita — foram convertidas em materia prima para futuros projetos.


No espaco deixado pela mesa a ideia e' colocar uma outra mesa, bem menor, bem mais baixa, uma especie de cereja sobre o bolo, comemorando a conclusao da substituicao de todos os moveis infestados da residencia.


O separador de orelhas andou indo e vindo para la e para ca em relacao a diferentes designs basicos para essa tal mesa... Eventualmente — o atrativo da curiosidade para variar sobrepujando meras consideracoes esteticas, hehehe — formou-se uma tendencia por uma construcao, para mim, inedita.

Nesse sentido, o primeiro passo foi serrar ao meio do comprimento uma prancha de cedro gaucho com bordos naturais que eu vinha guardando nao sabendo bem para o que. Foi aplicado com plainas manuais e lixas  um aparelhamento minimo, sem sequer remover das faces todas as marcas de serra.

Chegando ao que se ve ahi abaixo, apos um preacabamento com cupinicida e uma demao de oleo de tungue para proteger a peca, com brancais, de eventuais ataques por xilofagos e para evitar manchas e sujidades em geral, consideradas as lides e maus tratos inevitaveis durante o futuro desenvolvimento do movel...



E nisso estamos, matutando jeitos e modos para os proximos passos. Que com toda a certeza virei contar. Aqui, neste batcanal...


terça-feira, 3 de maio de 2016

O terceiro companheiro - na parede

Para a montagem da porta para o terceiro, e ultimo, companheiro do balcao das cavilhas optei por um processo bem simples — um rebaixo de meia madeira colado a ripinhas de meia espessura, digamos assim — algo semelhante a como mais usualmente se faz uma cerca, hehe. O resultado pode ser visto ahi na imagem `a direita, a colagem pronta e reforcada com milicavilhas (estas em funcao dos veios cruzados na area de colagem), aguardando as lixas.

Aguardando ficou par de horas.

Explico: eu havia inciado o processo da montagem da porta, evidentemente, por dimensionar as pecas. A ideia a seguir era cortar os rebaixos na serra de bancada, uma barbadinha. Porem havia me passado desapercebido um detalhe: a empresa de energia havia programado uma manutencao preventiva para aquela manha. Resultado? Luz cortada, claro, logo apos o primeiro corte. Nao querendo abandonar o projeto por tao pouca causa, encarei o processo todo manualmente, eu, minhas dozukis, o shooting board, par de plainas, uma furadeira e as milicavilhas. Tudo pronto, colado, reforcado, a cola seca... e a luz ainda demorou par de horas para voltar. E, convenhamos: eu ate encaro partir para a pura marcenaria desplugada quando necessario, sim. Mas lixar? Ah, nao! Ahi e' muita judiaria...



Quando a luz voltou... hora da vinganca!

Lixadeiras, tupia, mini retifica (para remover os queimados da tupia), parti para cima da porta com tudo o que tinha disponivel e cabivel em termo do maquinas, hehe. Muita polvadeira e ruidama depois, havia chegado ao estagio demonstrado na imagem acima `a direita, toda a maldita funcao das lixas concluida e a peca colorida pelo banho de cupinicida.

Seco o veneno, a peca foi levada para a frente da carcaca para conferir o dimensionamento e, claro, tirar uma temperatura da futura cara que teria o movel pronto...


Observando as imagens que havia colhido e apos uma consulta ao travesseiro, a porta foi serrada ao meio na largura, recebeu um aplique de cedro no centro e entao duas demaos de oleo de tungue como preacabamento.




A seguir o movel todo recebeu inumeras demaos de goma-laca decerada e clarificada (para nao alterar muito a cor) e entao ferragens, duas demaos de cera domestica e vidros, ficando pronto para a parede.

Com dois parafusos foi fixada uma barra de pinho onde apoiar o movel por baixo e, em cima, a pequena barra foi igualmente aparafusada e o movel estava fixo. (Detalhe interessante talvez, o espaco para acessar a barra superior fica, como pode ser visto em imagens na postagem imediatamente anterior, coberto por uma chapa de caixeta aparafusada — resultando assim, para quem aprecia essas coisas, um "compartimento secreto" no topo do movel.)




Completo o triptico sobre o balcao, ahi abaixo uma visao de como ficou o conjunto.

Possivelmente alguem pensara, ou dira, e eu concordo, ficou um pouco atravancado; talvez o aspecto com o espaco central vazio fosse mesmo mais atraente. Mas o fato inescapavel e' o terceiro companheiro, mais do que um adorno, esta ali por necessidade, para alojar as pecas que antes ocupavam o armario bichado que foi removido e esse conjunto agora substitui.



Alias, com isso, a conclusao do terceiro companheiro, minha batalha de remover e trocar todos os moveis com cupins na casa foi afinal vencida.

Vamos ver por quanto tempo, hehehe.