sábado, 8 de fevereiro de 2014

Fechando uma porta - III

Clicando as imagens, abrem-se versoes em maior tamanho.


A resina expoxi tendo curado tampando os buracos na superficie, a porta entao foi tratada em ambas as faces com lixa G60 na lixadeira de cinta, seguido por lixa G80 na lixadeira orbital. A imagem acima mostra o resultado na parte media de uma face da porta, a com maior numero de 'defeitos'.

A seguir, mais para satisfazer minha curiosidade do que por qualquer outra razao, borrifei agua em toda a face, para ter uma ideia de como poderia ficar apos um acabamento transparente...


Satisfeita minha curiosidade, hehe, foram marcadas com esquadro e serradas, com serra circular manual utilizando o auxilio de uma guia, as extremidades longas da porta, dimensionando-lhe o comprimento. Nova sessao de lixamento com a lixadeira orbital ate G180 em todas as faces, e a obra foi considerada concluida.


Ante a hipotese de aplicar frisos, relevos, rebaixos, quaisquer decoracoes, a futura dona da peca — sem saber que concordava comigo — optou por mante-la com esta, lisa e simples (e, nisso, provavelmente muito mais duravel, por nao haver frestas nem recessos por onde agua possa penetrar e/ou acumular-se).

Resta ainda, claro, a confeccao da esquadria para a porta, posicionar, acertar e fixar a encrenca toda em nivel e prumo na abertura, colocar as ferragens, escolher e fazer o acabamento. Disso, talvez eu va fazer a esquadria, pendendo ainda a futura proprietaria decidir se vai empregar dobradicas convencionais ou pivotantes. Colocar a porta nao esta nos meus planos: nao tenho experiencia nisso, e a casa e a propriedade dos outros nao me parecem lugar nem material adequados para aprendizados. Sem mencionar que a porta ultrapassou bem o limite de peso que minhas costas me impoem.

Pendendo os resultados, hehehe, talvez no futuro eu va tomar umas imagens de como a porta tera ficado, no lugar e funcionando. Veremos... Conforme for, compartilho com voces aqui, meus sete fieis leitores.


quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Fechando uma porta - II

Mantendo o ritmo extremamente lento imposto pelas escaldantes condicoes metereologicas com que o velho Pedro continua nos brindando aqui pelo portinho, uma vez feitas todas as furas e a montagem seca para corrigir quaisquer problemas remanescentes nos encaixes, fiz a colagem da porta em duas etapas.

Colando as primeiras duas folhas na primeira etapa





Utilizei cola epoxi de cura lenta por varias razoes: por permitir aproximadamente 30 minutos de tempo de trabalho, adequado para o ritmo imposto pela temperatura, hehe, e pelas naturais dificuldades de lidar com pranchas longas e pesadas, pela excelente adesividade da resina que, por permanecer mais tempo na fase liquida permite um mais profundo embebimento na madeira e, claro, por a resina curada resistir muito bem aos elementos, algo fundamental considerado tratar-se de uma porta externa.


Optei por fazer a colagem em duas etapas ao inves de colar tudo de uma vez nao apenas para reduzir os riscos de empenamentos e desalinhos na prensagem, mas tambem para facilitar o manuseio.


Na segunda e final etapa da colagem, embora usualmente trabalhando sozinho, acabei pedindo socorro e consegui uma auxiliar para efetuar a colagem e o posicionamento dos grampos em ambas as faces das madeiras.

A segunda etapa, as tres folhas colando
Como a porta e' mais larga do que a bancada, a participacao de uma auxiliar foi fundamental

Curada a cola (24 horas em cada etapa) e removidos os grampos, veio o penoso, cansativo, abafado processo de remover o excesso de cola e fazer com lixa grossa o primeiro passo do acabamento da porta. Nao tenho palavras para expressar quao agradavel e convidativo e', com temperatura beirando os 40°C, trabalhar com a cara tapada por mascara, oculos e fones... Santa desidratacao, Batman!

Mas, como dizem, nao ha mal que sempre dure, e eventualmente a lide de poeira profundamente irritante (quem ja lidou com cedrorana sabe bem do que estou falando) e barulho acima de 100 dB (com constantes preces a Sta. Edwirges do Profundo Silencio para que inventem uma lixadeira de cinta silenciosa de uma vez!) chegou ao fim.

A seguir, os pequenos defeitos de superficie (nos, furos, etc.) foram preenchidos com epoxi. Nos dois lados, com intervalo de 8 horas para virar a porta. E nisso estamos:








Amigo meu, nao familiarizado com a tecnica mencionada na postagem anterior (spring joint) de criar-se uma pequena concavidade nas superfices de colagem para evitar descolagens nas extremidades da emenda, comentou que ficou curioso de ver o resultado. Por isso, essa imagem ahi ao lado mostrando mais de perto, alem dos reparos com epoxi secando, as linhas de cola na parte central da porta.

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Fechando uma porta - I

Um longo hiato desde a ultima postagem. Varios motivos determinaram esse intervalo alargado, mas preponderantemente ponha a culpa no velho e implicante Pedro. O ultimo presente do Patrono do Rio Grande para os habitantes aqui da capital do Continente que lhe leva (ou levava) o nome foi e esta sendo uma onda de calor bagual, tao intensa a ponto de levar em varios dos ultimos dias o portinho a receber a duvidosa honra de ser apontada como "a capital mais quente do pais", e receber a alcunha nada carinhosa de "Forno Alegre".

Engracado? Uma ova!
Podem crer, calor de mais de 40°C com uma umidade relativa ao redor de 20-30% nao constitui uma ambiencia agradavel, mas da para tolerar bem — especialmente com mar por perto e liquidos gaseificados bem gelados disponiveis. Agora, calor de mais de 40°C com umidade relativa acima de 60% — nao raro bem, mas bem acima, la nos 90% — sem nem uma brisa, mesmo com o vivente parado, nao fazendo nada, litros e litros de suor derramando-se e simplesmente recusando-se a evaporar, mas tei...

Nah! E' indescritivel.

E voces — se e' que algum dos meus sete fieis leitores ainda restam por aqui — acham que bem no centro desse abrasador e umido circulo dos infernos eu ia-me animar a brincar de marcenaria?

Pior que sim.
Meu coracao mole (ou meu cerebro deteriorado?) acabou deixando-se convencer e acabei aceitando fazer algo que nunca fiz: construir uma porta. Mentira, claro. Nao, nao que eu estar fazendo uma porta externa de madeira macica seja mentira. Mentira e' que eu tenha tido de ser convencido. Na verdade fui eu quem tomou a iniciativa, movido pelo gosto de fazer uma coisa inedita em minha experiencia. So que, com essa meteorologia, a coisa esta indo devagar, bem devagarinho, que eu posso ser louco de ter decidido construir a porta, mas nao sou burro de me matar no processo, hehe.

--  oOo --

Considerei a principio desenvolver um modelo com paineis e almofadas por ser mais facil de lidar (e provavelmente mais divertido de construir) mas, por razoes de seguranca (vai ser a porta da rua de uma residencia) acabei por optar por um projeto o mais solido possivel: simplesmente tres taboas inteiras e espessas, solidamente emendadas. A madeira escolhida, numa relacao de resistencia/peso/estabilidade/disponibilidade acabou sendo cedro-mara (ou cedrorana, ou qualquer outro de seus tantos nomes).

Cortando as espigas soltas

As taboas, claro, foram cortadas algo mais longas e mais largas do que as medidas finais, e entao aparelhadas no ciclo habitual: uma face aplainada e retificada na desempenadeira onde a seguir um lado adjacente `a face foi plainado no esquadro, dai para a serra de mesa para cortar o outro lado paralelo e entao para o desengrosso para plainar a outra face.

Um retalho, dos cortados ao comprido das taboas, foi igualmente aparelhado para fornecer as espigas soltas a serem empregadas nas emendas.



Aparelhadas as taboas, os lados a serem emendados receberam, utilizando uma plaina manual, uma minima concavidade para obter-se o efeito spring-joint.

Talvez caiba lembrar, esses passos aparentemente simples e banais no entanto tem seus problemas, oriundos das dimensoes e peso das pecas e da necessidade de superficies adequadas nos lados, para uma boa emenda. As longas e pesadas pranchas apresentaram um consideravel desafio, tanto para minhas maquinas projetadas mais para servicos de marcenaria do que carpintaria, como para minha musculatura nao afeita a tao severas cargas. Quero dizer, entremeadas com palavroes, podem somar aos suadores varias, variadas dores em varios lugares da minha anatomia eu nem sabia existiam.

O passo seguinte, naturalmente, foi abrir as furas nos lados das tabuas a serem emendadas. Considerei primeiro empregar a tupia de mao para faze-las, mas duas consultas ao travesseiro acabaram por me convencer eu obteria resultados mais precisos e possivelmente, ao final, com menos trabalho e esforco, utilizando a tecnica manual ensinada por Mr. Paul Sellers empregando formoes. Alem do que, um bom treino...




Acima `a esquerda, tudo pronto para iniciar a marcacao e corte das furas e, `a direita, o inicio da abertura da segunda fura com a primeira, ja pronta, em primeiro plano.



Nas fotos acima, os primeiros lados com as furas abertas e as espigas soltas posicionadas, prontos para a colagem.

Antes de colar no entanto ha de abrir as furas nos lados que faltam e fazer a montagem seca da coisa toda para conferir ajustes e efetuar as correcoes dos desacertos que, inevitavelmente como reza o Murphy, haverao de aparecer.

Coisa para fevereiro...

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Vitrine em cedro - Pronta

Apenas dois detalhes me parecem talvez dignos de mencionar na finalizacao da vitrine.


O primeiro, como imagino se possa ver ahi na imagem  a esquerda,  foi que efetuei o acabamento interno da carcaca antes da colagem das partes. Essencialmente porque ficaria bem mais dificil dar polimento no fundo e acessar a parte abaixo da prateleira inferior com a peca montada, e tambem porque com a madeira coberta com acabamento eventuais excessos de cola resultantes da montagem sao facilmente removiveis sem deixar marcas.

O outro detalhe foi na escolha dos puxadores nas portas. Enquanto Mr. Teague optou por criar puxadores alongados "para acentuar a verticalidade do movel", eu decidi dar preferencia ao design do inspirador. Como praticamente em todos os moveis desse tipo criados por James Krenov os puxadores sao redondos, essa foi minha opcao.


Utilizei meu 'acabamento padrao' na carcaca e nas portas: oleo de tungue, goma-laca e cera.


Apos aplicacao da cera as portas foram posicionadas, as dobradicas definitivamente parafusadas no seu lugar definitivo, prateleiras no lugar e o movel ficou pronto.

Entao, o encaixe em faca foi posicionado no devido lugar na parede, um primeiro polimento aplicado e os vidros limpos. Posta a vitrine no seu lugar, uns recheios foram catados para a pose abaixo:


Muito provavel esta seja a ultima entrada do ano aqui no blog.

Entao aproveito para, alem de renovar meus agradecimentos por me brindarem com sua leitura, desejar a todos os amigos que regular ou esporadicamente visitam essas paginas e apreciam essa epoca do ano

MUITO BOAS FESTAS!


quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Vitrine em cedro - As dobradicas

Alem de, evidentemente, contar com as informacoes que Mr. Matthew Teague disponibilizou no artigo que originou essa encrenca toda, fui consultar na Teia sobre variacoes sobre o tema "posicionar dobradicas pivotantes" e considerei esses ahi dos links abaixo os mais pertinentes:
http://www.woodworkstuff.net/DKnife.html
http://goo.gl/Hglv64
http://www.leevalley.com/US/shopping/Instructions.aspx?p=69388

Claramente prioritario no posicionamento das dobradicas, a precisao. Tudo, o mais exato possivel, em um e outro lado, em uma e outra peca. Tal como ao cortar malhetes ao fazer encaixes, convenhamos...


A dobradica, colada com fita adesiva dupla face
A posicao da dobradica, marcada com faca
Como sabidamente e' muito mais eficiente no obter-se precisao usar-se gabaritos do que empregar medidas, como recomendado utilizei as proprias dobradicas como gabaritos.

Utilizando uma fita adesiva de dupla face para fixar uma das folhas em uma das portas, tracei sua posicao com uma faca. A seguir removi a folha da dobradica e, com formoes colocados nas linhas de faca, acentuei as marcas de posicionamento. 
As marcas acentuadas com formao

Restava entao apenas marcar a profundidade da fura para a dobradica, o que foi feito utilizando um graminho.
Marcada a profundidade da fura

Uma vez obtidas essas marcas, elas foram devidamente transferidas para o outro lado da porta e depois para a outra porta, sempre utilizando um graminho e a propria porta como referencia. Sim, tal como para marcar emendas.

Com as quatro furas marcadas tao exatamente quanto possivel nas mesmas posicoes nas duas portas, hora de corta-las.

 Na maioria dos artigos que li os autores optam por fazer o rasgo partindo para a remocao da maior parte da madeira empregando uma tupia e entao terminando de limpar a fura com formoes. Como considero que sempre as ferramentas manuais oferecem maior precisao do que as motorizadas, preferi optar pela tecnica da Lee Valley e empreguei formoes, e uma router plane pequena para bem acertar a profundidade.

O resultado? Encaixes perfeitos.



Reparem ahi na foto `a esquerda, na embalagem das dobradicas que eu ganhei cada par vem acompanhado de oito parafusos de bronze e um de aco. E' que parafusos de bronze sao frageis e quebram por qualquer torcao mais forte. E se um desses parafusinhos quebra na dobradica, voces imaginam a encrenca?

Pois e'. Por isso a tecnica recomendada e que utilizei e': coloca-se a folha da dobradica no encaixe cortado e marca-se o centro dos furos para os parafusos. Retira-se a folha  e utilizando os centros marcados faz-se um furo guia com uma broca e entao utiliza-se o parafuso de aco para abrir a rosca. Ahi entao recoloca-se a folha e faz-se a fixacao com os parafusos de bronze. E sem muito aperto, ate porque nao e' preciso.

Com as quatro folhas com furos fixas `as duas portas,  foi simples transferir as referencias da posicao das dobradicas para o topo e a base do movel, posicionando as portas nos seus lugares utilizando as marcas a lapis que ja estavam la riscadas. As faces, tanto da base, como do topo, sao todas inclinadas, portanto incompativel utilizar graminho para transferir as marcacoes. Por isso, apos outra vez desmontar o movel para liberar bem o acesso, utilizei um compasso seco para, a partir da referencia marcada posicionar, outra vez com ajuda de fita adesiva dupla face, uma folha de dobradica. E marcar a posicao com faca, etc., etc.

Encaixes cortados na base e no topo, com a carcaca re-montada as folhas com pinos foram encaixadas nas folhas com furo ja fixas nas portas e entao cuidadosamente deslizadas para dentro dos encaixes na base e no topo. Acertado o correto posicionamento das portas fechadas, foi questao de abri-las cuidadosamente e entao marcar a posicao dos furos para os parafusos. Cumprido o ritual de remover as folhas, fazer o furo guia e abrir rosca com parafuso de aco, as folhas voltaram a ser colocadas nos encaixes e entao parafusadas. E...

Ta - DAAHH!!

O esforco compensado: todos os posicionamentos justos, sem folga, mesmo ainda sem colagem

Mesmo sem fundo, batente ou fecho, as portas fecham bem.
O pequeno desnivel com a porta direita mais alta deve-se `a carcaca estar levemente fora de prumo.
Deslocando-se o topo da carcaca par de milimetros na direcao da seta verde, o alinhamento fica perfeito.
Afora o aspecto estetico de as dobradicas pivotantes ficarem praticamente invisiveis, seu funcionamento e' incrivel. As portas movem como se soltas no ar, nao se percebe nenhuma resistencia. Abrindo e fechando as portas, mesmo com o movel incompleto e algo guenzo por ainda nao colado, da para perceber por que vale a pena tanto trabalho so para utilizar essas dobradicas.

-- ooOoo --

E fundamentalmente era isso.

Claro, ainda falta cumprir varias etapas para o movel ficar pronto: fresar um rebaixo nas portas para os vidros, suportes para as prateleiras, as proprias prateleiras, de vidro e de madeira, e mais todos aqueles detalhes tao pequenos. Ah, claro, e o fundo.

Fundo que alias ja esta sendo engendrado: uma colagem de duas pranchas de cedro figurado. (Na verdade eu teria preferido fazer um "livro aberto", desdobrando uma das pranchas ao inves de colando duas, mas... lamento, minha serra de fita nao tem abertura suficiente; e desdobrar prancha `a mao definitivamente nao e' papo pra mim, como diria o Roberto.)

Mas tudo o que vem por ahi serao procedimentos basicos, pisados e repisados no nosso dia-a-dia, e nao vou querer perder nenhum de meus fidelissimos sete leitores aborrecendo-os com o obvio.

Entao, quero dizer, nova postagem...

... so quando o movel estiver pronto e acabado.


quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Vitrine em cedro - As portas

(Clique nas imagens para ve-las em maior resolucao)

Cortada e modelada a carcaca da vitrine, o passo seguinte foi fazer as portas. Em funcao do uso proposto de dobradicas pivotantes, a recomendacao da literatura e' que as portas sejam construidas absolutamente em esquadro e com medidas tao exatas quanto possivel para encaixarem sem folgas na frente do movel.

Bridal joint
A posicao das portas
marcada a lapis
Mr. Matthew Teague optou por fazer os encaixes das molduras das portas utilizando bridal joints — ainda outra variacao, passante, do encaixe em espiga e fura, e que poderia ser traduzido por "encaixe nupcial" (nao sei se esse tipo de encaixe ja tem nome especifico em portugues; se alguem souber, por favor me informe). Nao apenas esses encaixes foram utilizados rotineiramente por James Krenov em inumeros de seus moveis como, alem do belo aspecto que conferem `a emenda exposta, por sua geometria praticamente garantem a emenda ficara em esquadro, cumprindo assim a primeira exigencia da construcao das portas.

Para cumprir a segunda exigencia, o exato dimensionamento, a posicao em que as portas deveriam ficar foram marcadas a lapis na base da carcaca para obter-se a medida exata para as traves horizontais. A medida das traves verticais foi tirada diretamente das laterais da carcaca.

Aparelhadas e cuidadosamente dimensionadas as traves laterais e verticais das portas, as emendas foram cortadas na serra de mesa.


Tenoning jig
Para cortar as furas recorri `a ajuda de um tenoning jig e entao regularizei o fundo do encaixe com um formao. (O tenoning jig nao e' indispensavel, evidentemente; ainda na serra de mesa pode-se acoplar uma guia auxiliar alta para efetuar-se os cortes, ou pode-se cortar as emendas todas com serras manuais.)

Para cortar as espigas o corte inicial — dos ombros dos malhetes, a posicao meticulosamente marcada com uma faca — foi feito com auxilio de um treno deslizante e um batente fixo. O corte da 'bochechas' das espigas foi efetuado mais uma vez com auxilio do tenoning jig.


Ahi, claro, era so questao de aplicar cola e efetuar os encaixes...

Doce ilusao!

Provavel que alguem com maior experiencia nessa tecnica e nesses procedimentos realmente consiga fazer as emendas ja sairem perfeitas das maquinas. No caso do curioso aqui, ate pela exigencia de exatidao nos resultados, ainda foi necessario um bom suador em limpar e ajustar os encaixes com formoes e plainas manuais ate conseguir, como recomendado, ficassem absolutamente fechados, sem folgas, excessos ou faltas, entrando justos mas apenas com forca manual.

Ahi entao, a montagem seca, cuidadosamente aferindo tudo ficasse rigidamente em esquadro e exatamente nas medidas.
A porta no mesmo exato comprimento das laterais da carcaca

Apos tudo devidamente conferido em montagem seca, as traves verticais centrais foram para o desengrosso para receber um rebaixo de aproximadamente 2mm na parte frontal para, por razoes esteticas, criar um ressalto e, consequentemente, uma linha de luz e adicionar tridimensionalidade `as portas. Entao sim, foi aplicada cola e as portas montadas.


A porta direita, pronta para a cola
Tem sido um habito que aprendi, sempre que desenvolvo um projeto com tecnicas, aspectos novos, com os quais nao estou familiarizado, fazer uma parada antes de cada novo passo. Antes de propriamente por as maos na obra, analiso com todo o tempo do mundo, mentalizando repetidamente tudo o que vai ser feito, imaginando tudo que possa dar errado e como evita-lo, o que possa ser facilitado. Nao raro faco consultas, e tudo, e tal. Eventualmente faco consultas inclusive com o melhor dos conselheiros, o travesseiro.

Ajuda. Nao apenas a evitar desperdicio de suor e madeira, como nao raro consigo prevenir erros e modificar tecnicas para melhor (pelo menos na minha sempre desconsideravel opiniao, quero dizer). Mas certamente nao e' infalivel...

A etapa seguinte na construcao das portas foi cortar os angulos, em ambas as laterais de cada porta e na frente das laterais da carcaca, para obter-se a inclinacao das portas paralela ao angulo ja determinado nos tampos da carcaca.. Um processo relativamente simples: o angulo foi medido na base da carcaca (6°), esse valor foi aplicado para inclinar a lamina da serra de mesa e, marcados a lapis os devidos posicionamentos dos cortes para evitar erros, as portas e laterais foram passadas na serra e entao o movel voltou a ser remontado para conferir se tudo certo ou se necessarios ajustes.



A montagem fotografica `a direita mostra,

na parte superior, como as portas encaixaram-se praticamente sem folga alguma na altura;

no centro, como o angulo pre-marcado na base foi rigorosamente respeitado com as portas fechando-se sem folgas e;

na parte inferior, como o ajuste entre a porta e a lateral do movel (obviamente, a imagem original foi girada noventa graus) ficou sem quaisquer folgas.

Maravilha! Tudo perfeito, um sucesso.

Na verdade... Nao!

Apesar de todo o planejamento, do pensar e repensar, um detalhe me passou inteiramente despercebido. Quando fui serrar os angulos nas traves centrais das portas deixei a face frontal, rebaixada, virada para baixo, contra a mesa. Obvio agora, mas nao me tinha ocorrido, quando do corte a serra empurrou a fina porcao mais central da trave contra a mesa. E, claro, nisso alterou o angulo do corte.

Assim — embora as portas fechem sem folga atras e, na frente, nas porcoes superiores — na frente e no meio, na parte que 'afundou' quando serrada ficou uma nitida folga:


Certo, eu deveria ter serrado as porcoes centrais pelo outro lado da serra, com a parte plana contra a mesa. Agora eu sei. Mas a folga esta la. E... azar! Vai ficar, hehehe.

A ter o trabalhao de refazer as portas, prefiro deixar o defeito e racionalizar: fica como um lembrete permanente de que por mais capricho se tenha, por mais se teorize e se procure antecipar e evitar problemas, vencer o Murphy e' quase impossivel exceto pela pratica. Definitivamente, aprender... so se aprende errando mesmo, e nao tem jeito.

Agora... Posicionar as benditas dobradicas pivotantes!
E um provavel festival de erros...

Veremos.

domingo, 8 de dezembro de 2013

Vitrine em cedro - O funil

Lendo a edicao de abril de 2012 da Popular Woodworking e focando na materia de capa — um movel, uma vitrine no estilo de James Krenov — um detalhe especificamente me chamou a atencao: o emprego de dobradicas pivotantes.


Tendo lido e ouvido inumeros comentarios sobre as dificuldades tecnicas no emprego desse tipo de dobradica, em certa ocasiao inclusive levei um longo papo sobre o tema com um amigo. Imagino algo na conversa deve te-lo impressionado, porque algum tempo depois ele me presenteou com uns exemplares dessa ferragem para, nas palavras dele, "ver, com as maos, que jeito que a coisa tem".

Se algum de meus sete fieis leitores nao conhece, o jeito da coisa para os olhos e' esse ahi da imagem abaixo.



Usualmente, consta, essa dobradica e' empregada quando se deseja uma ferragem minimamente visivel, de tal forma que nada distraia os olhos da madeira e do design de um movel. O problema de seu uso e' que posiciona-la adequadamente, pelo que dizem, pode ser um pesadelo. Tanto quanto pude me informar, a unica maneira segura de garantir seu posicionamento correto e' posiciona-la com o movel em montagem seca, antes da cola, de forma a se poder corrigir angulos, profundidades, etc...

Desnecessario dizer ha horas estava com comichao para empregar as ditas cujas em um projeto. Vendo na revista o belo movelzinho inspirado no estilo de um dos grandes mestres da marcenaria do seculo XX foi a gota d'agua para decidir cocar a coceira.

Mas houve ainda um outro fator para eu decidir tentar reproduzir o projeto apresentado por Mr. Matthew Teague. Uma emenda em cauda-de-andorinha deslizante afunilada, algo que eu nunca fiz e fiquei morrendo de vontade de fazer. E e' justamente essa emenda a primeira etapa da construcao.

A emenda em cauda-de-andorinha deslizante, esquematizada ahi `a direita, e' uma variante da emenda em espiga e fura. Oferece excelente rigidez, otima superficie de colagem e e' relativamente facil de cortar com tupia manual, e ainda mais facil com tupia de mesa.

Por vezes no entanto, por variados motivos nao ha interesse em a emenda possa deslizar, mas ao contrario fique fixa em uma unica determinada posicao. Para isso, afunila-se a canaleta. Um exemplo, esse video ahi abaixo que encontrei quando procurava uma imagem para ilustrar a emenda afunilada (nao tem nada a ver com o nosso assunto, a proposito, mas achei tao interessante que resolvi postar assim mesmo, hehe):



No caso do nosso movel entretanto, a razao para afunilar a emenda e' facilitar a montagem e desmontagem do movel.

A canaleta paralela produz muito atrito ao mover-se a emenda, dificultando a movimentacao e mesmo podendo produzir defeitos no encaixe quando se monta e desmonta a ensambladura com muita frequencia. Afunilando a canaleta, e a espiga, a emenda entra com folga e so se ajusta e firma somente no final do curso. Fica facil e seguro montar e desmontar a emenda quantas vezes se queira.

E assim, feitas essas tantas consideracoes, resolvi partir para a pratica e ver que bicho vai dar.

Comecei, claro, por aparelhar e dimensionar as taboas para a carcaca, e entao cortei as emendas em cauda-de-andorinha deslizante afunilada.

 As furas cortadas  em ambas as extremidades da base (e do tampo) da carcaca.

 Pelo 'afunilamento', a canaleta e' mais larga na "entrada" (marcas vermelhas) do que no "fim" (marcas verdes). A espiga e' exatamente  mais estreita em uma extremidade do que na outra, de tal forma que apenas quando inteiramente introduzida na fura a emenda firma completamente, como se ve abaixo:


Uma vez determinado o ponto de corte, o corte de cada fura foi realizado em quatro etapas na tupia de mesa: uma primeira passada mais rasa com uma fresa reta seguida de uma passada com a mesma fresa em toda a profundidade do corte. A seguir uma passada a toda profundidade com uma fresa em cauda-de-andorinha. E entao, para o afunilamento, foi colado com fita adesiva de dupla face uma chapinha fina de madeira em um dos bordos da tabua para causar o angulo. As espigas foram cortadas em uma passada de cada lado com a fresa em cauda-de-andorinha, depois de determinar a altura da fresa e a distancia da guia em uma sobra com a mesma espessura da peca.
















Nas fotos acima, 'emprestadas' do artigo original na revista, na extremidade das setas vermelhas ve-se o posicionamento de uma chapinha (sempre a mesma) para causar o angulo de afunilamento nos cortes da fura e nos da espiga, utilizando uma tupia manual e uma tupia de mesa.

E, finalmente, a carcaca do movel em montagem seca:


Que e' onde estamos...