quinta-feira, 9 de junho de 2011

Mais madeiras vagabundas

Problema usual em toda oficina, o acumulo interminavel de pecas, componentes, jigs, tralhas em geral, e o habito quase doentio de guardar tudo, de nao jogar praticamente nada fora (porque pelo Principio da Implicancia Natural das Coisas, o que se joga fora hoje amanha vai fazer uma falta danada, hehe), acabam gerando pesadelos de logistica. E, evidente, quanto mais coisas para guardar, mais espaco onde guardar se faz necessario porque, por exemplo, ter de catar um determinado parafuso na "pilha dos parafusos" e' um processo demasiadamente pouco eficiente.

Dai que, havendo um espaco vago em uma parede e em eu tendo uns retalhos bons de compensado dito naval de 10mm dando sopa, resolvi fazer um armarinho para a 'oficina', para reduzir um pouco a desordem, amansar um pouco o pesadelo, digamos assim... E entao, porque nao gosto nada da aparencia dos compensados que temos disponiveis por aqui, e porque achei que seria um exercicio interessante, resolvi tentar fazer com que o compensado ficasse invisivel, utilizando para face do movel os meus restos de madeiras vagabundas, ou seja,  cedrinho de terceira e pinus de palets. E mais, para dar ainda maior graca ao brinquedo, resolvi utilizar tambem as pecas arredondadas que eu havia feito como piloto para meu armario de banheiro e que estavam jogadas, sem uso.

Dadas as circunstancias — uso na 'oficina' — preocupei-me muito mais com os aspectos construtivos e de design, testando algumas tecnicas que so conhecia teoricamente, experimentando algumas 'invencoes', como diferentes maneiras de posicionar imas como fechos para as portas, e tive pouca, se alguma, preocupacao com acabamentos.

Evidente que se tivesse feito o armarinho para ser exibido em alguma peca mais, mm, social da casa, o capricho nos finalmentes seria outro. As madeiras seriam outras, nao deixaria manchas de cola, teria comprado dobradicas de tamanho compativel ao inves de usar o que ja tinha em casa e provavelmente as fixaria internamente ao inves de deixa-las expostas, teria lixado para bem alem de grana 80, nao teria limitado a protecao superficial a umas poucas demaos de cera... e por ahi afora. O que, claro, nao e' justificativa, apenas uma explicacao, hehe...

Mas no final, alem do consideravel aprendizado, especialmente para lidar com partes curvas, o que praticamente sempre exige o uso de ferramentas manuais, com muitas das quais estava ha tempos desfamiliarizado, achei que o design ficou ate interessante e, funcionalmente, o movelzinho ja esta sendo uma mao na roda, um consideravel facilitador.

Lembrando que, como sempre, clicar nas imagens encaminha para a imagem original, maior e de melhor qualidade, espero que essa minha nova exibicao de madeiras vagabundas nao lhes desagrade muito aos olhos...



quarta-feira, 8 de junho de 2011

A cruz dos veios

As modernas colas para madeira a base de PVA aderem mais às fibras da madeira do que as proprias fibras entre si, o que significa que em uma colagem bem feita o ponto de maior resistencia sera sempre a linha de cola. A proposito, como a aderencia da cola consigo mesmo e' menor do que sua aderencia `a madeira, uma colagem sera tao mais eficiente quanto menos espessa for a linha de cola, razao por que as duas superficies a serem coladas deverao estar bem lisas, justaporem-se o mais perfeitamente possivel e a colagem deve curar sob pressao.


Emenda lado a lado, veios paralelos
A colagem ideal entre madeiras ocorre quando se as une lado a lado, com veios paralelos. Por exemplo, para obter-se o tampo de uma bancada de trabalho, devido `a raridade de encontrar-se pranchoes de boa madeira ultimamente costuma-se formar um painel com ripas coladas lado a lado, com veios paralelos. Como em uma (bem feita) colagem com veios paralelos a linha de cola e' o ponto mais resistente, esse painel resultara de fato um monobloco ate mais resistente do que se fora uma peca unica de madeira. 
Emenda de topo

Ja colagens que envolvam o topo da madeira, os veios curtos, sao a pior hipotese — e por isso usualmente sao evitadas. E' dificil, ou impossivel, se obter um acabamento realmente liso nos topos, resultando em distanciamento entre varios pontos de colagem determinando uma linha de cola sempre mais espessa e, portanto, menos resistente. Mais, a madeira e' sempre muito mais absorvente nos topos, a cola e' 'chupada' pela madeira, o que inescapavelmente resultara em reducao do volume de cola disponivel na emenda, enfraquecendo ainda mais a colagem.

Emenda com veios cruzados
A meio caminho entre esses extremos fica colar madeiras face a face, mas com os veios cruzados. Nessas circunstancias e' possivel de se obter uma boa superficie de contato e portanto uma linha de cola pouco espessa e muitissimo aderente, mas o problema aqui nao e' com a cola. O problema e' que a madeira 'trabalha', se expande e se contrai na direcao transversal (da largura) dos veios conforme as variacoes de umidade e temperatura e, como os veios estao cruzados, essa expansao e contracao tera sempre valores diferentes de cada lado da linha de cola, em tempo levando inevitavelmente `a fadiga e entao ruptura da colagem.

Mas se emendas de topo e com veios cruzados nao sao as ideais para colagens, nem por isso deixam de ser frequentemente indispensaveis na lide de construir-se com madeiras. A solucao, claro, foi desenvolvida ja em tempos imemoriais, e consiste em reforcar tais emendas para que nao dependam exclusivamente da adesividade da cola — ate porque em tempos imemoriais sequer havia cola...

Ha inumeras razoes para se queira realizar tais emendas, como ha inumeras abordagens possiveis para efetuar-se tais reforcos e permitir-se emendas resistentes e persistentes, seja qual a for a orientacao dos veios, seja qual for a razao de faze-las. Em uma visao abrangente, visando facilitar como abordar cada circunstancia, pode-se contemplar duas grandes divisoes em como reforcar emendas. A primeira divisao seria usando ou nao usando elementos externos para reforco, a segunda se a emenda visa apenas alcancar uma determinada forma, ou se sera submetida a esforcos, sofrera carga.

Assim, por exemplo, uma emenda de topo pode receber um reforco com um elemento externo, como uma cantoneira, ou pode ser reforcada por uma ensambladura, um encaixe que lhe adicione resistencia. Uma emenda puramente decorativa, como a de uma moldura, tera pouca ou nenhuma consideracao estrutural, enquanto que uma emenda que sera sujeita a cargas, como a do pe de uma cadeira, necessariamente priorizara a estrutura sobre a forma. O tema e' central `a marcernaria, e por isso mesmo extremamente amplo, enormemente variado. Longe de mim portanto a pretensao de sequer supor a ideia de esgotar o assunto, nesta ou em quantas postagens seja; a ideia e' tao somente ir apresentando alguns comentarios sobre algumas das mais notaveis e costumeiras tecnicas de emendas.
Fura (mortise) e espiga (tenon)

Justamente uma das mais notaveis e certamente uma das mais costumeiras dessas tecnicas e' a ensambladura em fura e espiga (em ingles, para facilitar pesquisas na Rede, mortise and tenon joint).

Talvez a mais resistente das emendas, e' usualmente a primeira opcao quando se almeja uma uniao capaz de suportar grandes esforcos, torcoes ou peso. Pode ser modelada, desde manualmente, com formoes e serras manuais, ate utilizando maquinaria dedicada, como e' feito industrialmente. E nao so quanto ao tamanho, pode apresentar-se em inumeras formas e com variados modos de fixacao, alem de colagem.

Inobstante a forma de construi-la — e ha um assombroso acervo de discussoes sobre o tema disponivel na Rede, a comecar por se o melhor e' adaptar-se a espiga `a fura ou, ao contrario, primeiro cortar-se a espiga e entao adaptar-se a fura — e a forma de fixa-la — aberta, fechada, com cola, cunhas, pinos ou como seja — uma consideracao ha de, sempre, ser primordial: O encaixe tem de ser rigorosamente preciso!

Nao pode haver quaisquer folgas, nao pode haver pressao excessiva no encaixe. Isso e' o fundamental.
O resto sao conveniencias, circunstancias.
Detalhes...

quarta-feira, 1 de junho de 2011

As voltas que o mundo da

Atraves da historia muito poucos paises ocidentais poderao se comparar `a Inglaterra por seu amor `as artes e `a tradicao na marcenaria. Como filho de peixe peixinho e', entre outras tantas coisas A Matriz herdou de seus fundadores esse apego `as coisas de madeira, tanto que por la woodworker e' profissao muitissimo respeitada, a quantidade de marceneiros hobistas se mede em multiplos de centenas de milhares, e o mercado do ramo... Bom, digamos que e' o maior do mundo, e fiquemos por ahi.

Um mercado milionario, centenas de milhares de praticantes... Isso por certo nao passaria desapercebido `a turma do show business. Tanto nao passou que hoje — como ja mencionei em uma postagem anterior aqui mesmo no Marceneiro em Casa — o programa de maior audiencia da rede publica de TV (PBS) e' Antique Roadshow, com saliencia para seu segmento de marcenaria.
Norm Abram


E por falar em PBS, o maior hit da rede no segmento de marcenaria em todos os tempos foi, sem qualquer duvida, o The New Yankee Workshop, estrelando Mr. Norm Abram.


A comprovar sua alta audiencia, por vinte e um anos, vinte e uma temporadas o show foi transmitido. Televisao tendo o poder que tem, Norm virou intimo de todo mundo e superstar dos marceneiros, e embora a serie tenha sido encerrada pela aposentadoria voluntaria do protagonista em 2009, ainda hoje os episodios sao reprisados em inumeras retransmissoras da PBS e, inclusive, pela Internet no site http://www.newyankee.com/online.php.


Norm Abram e seu
Bonnet-topped Queen Anne-legged highboy
Uma das caracteristicas mais marcantes no estilo de praticar marcenaria de Mr. Abram era o uso, preferencial e intensivo, de maquinario e pouco (ou nenhum) emprego de ferramentas manuais. Sendo um personagem famoso, Norm tinha obviamente milhares, milhoes de admiradores e, igualmente obvio, milhares, milhoes de detratores. E, claro, enquanto seus admiradores aplaudiam seu estilo, os detratores caiam de pau; enquanto os partidarios da faccao 'moderna' da marcenaria (sobre faccoes, clique aqui) elogiavam a praticidade, a simplicidade e a facilidade de execucao de seus projetos, os adeptos da faccao 'classica' diziam, entre outras coisas, que ele nem era marceneiro, mas que meramente passava madeira pelas maquinas, era so um garoto-propaganda das industrias e lojas de maquinas que o patrocinavam, e por ahi afora. Quando em 2006 ele apresentou, ocupando excepcionalmente dois de seus programas, a construcao de sua versao da replica de talvez o mais afamado, e certamente um dos mais complexos, dos moveis classicos americanos (o Bonnet-topped Queen Anne-legged highboy), muitos da turma 'classica' ate deram o braco a torcer: afinal o cara ate que levava um certo jeito. Mas os mais ortodoxos certamente que nao: antes pelo contrario, lamentaram o sacrilegio. Normal...


Nem e' preciso dizer que enquanto Mr. Abram e seu NYWS reinavam, liderando as pesquisas de audiencia, uma corte de aspirantes ao trono batalhava por visibilidade. Entre eles ia-se salientando um certo jovem proselito ultra-ortodoxo da faccao 'classica'; adepto da Internet e seus recursos, ja tendo criado um forum e figurinha carimbada de varios outros, frequentemente divulgando video podcasts de seus trabalhos, bem apessoado, usuario habitual de camisetas justas para mostrar seu fisico sarado, conhecido pela alcunha T-Chisel (T-Formao).


Certamente nao contando entre seus defeitos a modestia, apregoava que nao fazia simplesmente moveis mas sim reliquias de familia para as geracoes futuras! Pregava aos quatro ventos a supremacia das ferramentas manuais sobre as maquinas; com tanta enfase que certa feita em um de seus podcasts na Rede jogou longe, como lixo, uma lixadeira excentrica afirmando que lixamento estraga os veios das madeiras, e o unico metodo aceitavel de acabamento para moveis e' com plainas e escariadores.


"T-Chisel" e sua
Serpentine Front Bombe Secretary
Tanto fez que foi desafiado, e topou o desafio de construir, utilizando recursos e tecnicas do seculo XVIII, uma replica de uma secretaria bombee Chippendale de 250 anos exposta em um museu de Rhode Island, avaliada em treze milhoes de dolares — documentando TODO o processo em video podcasts, os acertos e tambem os erros, sem edicao. Em um determinado ponto da construcao ele comete um erro e precisa remover toda uma secao do movel; mais de um mes de trabalho jogado fora, mas eventualmente — ao final de 82 episodios! — ele consegue terminar o projeto, vence o desafio.


Resumindo a historia antes que fique (mais) chata, eventualmente ele acabou assumindo seu nome real, Thomas J. MacDonald (embora ainda use o nome-de-guerra Tommy Mac), ampliou consideravelmente sua presenca na Rede (5.960.000 retornos se clicado seu nome no Google!) e seu The Rough Cut Show, de um podcast na Rede acabou virando um show de TV, com direito a site e tudo.


Sim, exatamente na PBS. E sim, sim, em 2010, exatamente em substituicao ao show de Mr. Abram.


Tambem previsivelmente, Mr. MacDonald nao apenas ostenta hoje em seus shows uma oficina com tudo o que ha de mais moderno em maquinas, fixas e portateis, como as opera rotineiramente (inclusive lixadeiras, hehe) em todos os seus projetos. O discurso, evidentemente, amaciou e embora eventualmente possa ate vestir uma saia justa ao responder certas perguntas quanto a afirmacoes do passado, o fogo proselitista certamente apagou. Normal...


E nao, nao creio que porque tenha como patrocinadores industrias e lojas de ferramentas eletricas.
Penso o tempo e' que ensina que, nao so em marcenaria, nao importa o jeito certo ou o jeito errado. As voltas que o mundo da acabam por ensinar a todo mundo que frequentemente o jeito certo hoje pode estar errado amanha. E o que importa e' acharmos o nosso jeito. O jeito melhor.

domingo, 29 de maio de 2011

Fazendo cera

Ceras, isoladas ou associadas a outras substancias, tem sido empregadas para inumeras aplicacoes em praticamente todos os campos de atividade humana, desde a pre-historia. De fato, nos primeiros textos e nas primeiras obras de arte de que se tem registro utilizou-se cera de abelhas. No escopo desta postagem entretanto, vamos nos focar a alguns comentarios sobre o emprego das ceras com foco mais enderecado `as areas afeitas a seu uso no polimento de madeiras, e seu preparo domestico.

Quimicamente, as ceras sao substancias pouquissimo reagentes, quase inertes. Do ponto de vista fisico, sao maleaveis `a temperatura ambiente, e se derretem a temperaturas relativamente baixas em um liquido de baixa viscosidade; sao insoluveis ou pouquissimo soluveis, exceto em solventes nao-polares fortes, e eventualmente so a quente. A caracteristica fisica, altamente pertinente a marceneiros, que as singularizam  e' que aderem fortemente a praticamente qualquer substrato, mas quase nada a si mesmas.

Em funcao dessa sua peculiar caracteristica, aderem `a madeira com rara tenacidade. Aderem tanto que, apos aplicadas, a unica maneira de remove-las e' removendo igualmente a camada superficial do material onde foram aplicadas, com lixamento por exemplo. Como pouco, quase nada, aderem a si mesmas, podem ser polidas ate uma camada muito fina, quase totalmente transparente, muito lisa e extremamente facil de ser limpa: um grao de po caindo sobre a camada de cera tendera a se aderir a ela; como a aderencia da cera com cera e' quase inexistente, qualquer coisa, um simples passar um pano, removera o po com extrema facilidade. Como sao insoluveis `a agua, impermeabilizam a superficie que recobrem; sua inercia quimica as tornam uma barreira efetiva a reativos e pouco ou nada sensiveis `a passagem do tempo. E sao facilimas de retocar: nao e' preciso qualquer preparo alem de passar um pano seco e entao basta aplicar outra camada, polir, e pronto.

Ha ceras naturais — de origem animal, vegetal e mineral — e mais recentemente sinteticas, usualmente fabricadas utilizando polimeros de fragmentacao do polietileno. Ceras tem inumeras utilidades, incontaveis aplicacoes e pode-se dizer que praticamente, para cada uso, ha uma formulacao diferente de cera. Diferentes ceras em diferentes proporcoes, com ou sem uma infinidade de adesivos como oleos, vernizes, secantes, etc., sao oferecidas industrialmente ou preparadas oficinalmente para um vasto leque de empregos. Aqui, na esfera de fazer cera em casa, nos interessam basicamente tres: uma cera animal, a de abelhas, uma vegetal, a cera de carnauba, e uma mineral, a parafina.

Cera de abelha






A cera de abelhas pura e' apresentada mais frequentemente em blocos, sua cor varia de amarelo claro a marron profundo; e' macia e bem maleavel, so um pouco pegajosa e derrete ao redor de 63°C.






Cera de carnauba
A cera de carnauba bruta e' usualmente comercializada em escamas, a cor varia do creme palido a um denso amarelo sujo; e' muito dura (mais dura do que concreto!), nada pegajosa, e derrete ao redor de 85°C. E' praticamente insoluvel na temperatura ambiente.




A parafina vem comumente em blocos, e' branca, nao tem cheiro, e' relativamente macia, quebradica, pouco pegajosa, e derrete entre 50 e 70°C.

Parafina





A mistura dessas tres ceras em partes iguais em peso e' certamente a mais consagrada das formulacoes de cera para marcenaria, resultando um produto capaz de oferecer excelente cobertura, otima protecao e um acabamento brilhante. (E mesmo, com pequenas 'regulagens' na composicao, suficientemente flexivel para varios outros usos alem de acabamento.)

Em essencia, a maneira mais simples (tanto quanto eu saiba) de preparo consiste em liquefazer as ceras e, entao, adicionar um solvente ate obter-se a consistencia desejada.

Existem, pelo menos no mercado do Primeiro Mundo, equipamentos especificos para se derreter cera, como o ilustrado na foto `a esquerda. Talvez nao tao pratico, nem tao seguro, mas certamente bem mais barato, e' utilizar-se um banho-maria. Derretidas e bem misturadas as ceras no banho-maria, acrescenta-se entao solvente para alcancar-se a consistencia desejada do preparado quando frio, mistura-se bem, e fim.

Entre os varios solventes possiveis de ser utilizados, os de emprego mais comum sao aguarras, querosene e gasolina. Todos eles devem ter ponto de ebulicao acima de 100°C, para nao haver o risco de ferverem no banho-maria — o que representaria monumental risco de incendio. Alias, mesmo se obvio nunca e' demais lembrar: tanto as ceras, como ainda mais os solventes, sao altamente inflamaveis e, se possivel, nao se deve aquece-los com chama aberta. Em se usando chama aberta, e' muito aconselhavel deixar por perto equipamento antichamas.

Pessoalmente eu uso fogao a gas, com chama aberta portanto, e sempre que vou derreter cera deixo o extintor de incendio do carro ao lado, pronto para uso (nao custa nada, e pode representar uma IMENSA economia!). Coloco uma vasilha metalica dentro do banho-maria preparado em uma panela, adiciono as ceras devidamente pesadas e vou mexendo com um sarrafinho ate obter um liquido homogeneo. Apago o fogo, e entao adiciono terebintina, que e' o solvente que eu prefiro, mexendo sempre ate homogeneizar bem. Em seguida, despejo a cera liquida em um recepiente que feche hermeticamente, deixo aberto ate esfriar, e entao fecho.

O padrao, como mencionado, e' utilizar o mesmo peso das tres ceras. Um pouco mais de parafina, se desejado um pouco mais de brilho com polimento manual; mais cera de carnauba se for ser usada politriz eletrica (a cera de carnauba da um brilho excelente e duradouro, mas e' dura demais para ser polida `a mao). A quantidade de solvente para atingir-se a desejada consistencia vem da experiencia. Se ficar muito mole, e' deixar aberta e ir mexendo para o solvente evaporar; se muito espessa, e' adicionar um pouco mais de solvente e mexer.


Assim como ha imensa variedade na formulacao de cera, tambem ha nos metodos de preparo. Nao tenho qualquer pretensao de conhecer sequer parte consideravel deles, muito menos de saber das exatas vantagens deste ou daquele. Com sua vasta oferta de informacao os mecanismos de busca da Rede poderao atender `a curiosidade e ampliar os conhecimentos dos interessados ate a profundidade desejada. Minha sugestao e' iniciar produzindo pequenas quantidades, umas poucas dezenas de gramas. E ir experimentando.

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Tupia na mesa — A Altura da Fresa

Como mencionado na postagem anterior, a tupia de mesa tem duas setagens: a distancia da guia, e a altura da fresa. A distancia da guia `a fresa determinara a profundidade do corte no eixo horizontal, e a altura da fresa acima do tampo, a profundidade do corte no eixo vertical. Se a setagem da distancia da guia em geral e' um processo simples, intuitivo, setar a altura da fresa pode ser uma longa historia...

Para comeco de conversa, ha dois tipos fundamentais de tupias de mao.
Makita 3601B

Em primeiro lugar — ate porque foram os primeiros modelos a ser desenvolvidos, logo apos a I Guerra Mundial — temos as tupias de base fixa, que regulam a altura (ou profundidade) da fresa movendo, usualmente atraves de algum mecanismo de rosca, o motor para cima ou para baixo por dentro da base e entao travando a altura. Embora haja inumeros fabricantes mundo afora produzindo diferentes modelos de tupias com base fixa, no limitadissimo mercado de pindorama (excetuadas as tupias laminadoras que, sim, tem base fixa, mas por sua baixa potencia em geral nao se prestam para montagem em bancada) ha apenas um modelo disponivel, a Makita 3601B. (Nesse modelo, a regulagem da altura da fresa e' efetuada girando aquele anel verde ate a fresa alcancar a altura desejada, e ahi travando o ajuste com o parafuso.)
ELU MOF 98
Um dos primeiros modelos fabricados pela
industria que, em 1949, inventou a tupia de colunas

Pelo final da decada de 40 do seculo passado, foi desenvolvido e comercializado o outro tipo, a tupia de colunas, tambem chamada de mergulho, que oferece nao apenas uma regulagem mais precisa e repetivel da altura da fresa, mas tambem seguranca bem maior na operacao e tem a fundamental vantagem de permitir que a altura da fresa possa ser variada, para mais ou para menos, mesmo com a maquina em operacao. Este tipo de tupias e' feito para ser operado com ambas as maos — o que garante melhor controle e maior seguranca na operacao — e a altura da fresa pode ser aumentada simplesmente soltando a trava e empurrando o corpo da tupia contra a base. Isto fara o corpo deslizar pelas colunas, mergulhando mais a fresa para alem da base. Esse processo pode ser efetuado com a maquina em operacao, e o curso pode voltar a ser travado em qualquer ponto, a qualquer momento. O final do curso e' estabelecido por um batente regulavel com precisao que determinara a maxima altura a que a fresa pode ser exteriorizada. A qualquer momento, soltando a trava e relaxando a pressao contra a base, um sistema de molas fara retornar o corpo da tupia, recolhendo a fresa. Adicionalmente, os modelos mais modernos de fresa de mergulho dispoem ainda de uma regulagem fina da profundidade da fresa, assegurando precisao na faixa de milesimos de milimetro.

Mas se, com uma vantagem aqui, uma limitacao ali, os sistemas de regulagem da altura da fresa funcionam a contento nas tupias de mao usadas na mao, quando colocadas na mesa, de cabeca para baixo, a coisa muda de figura. Pela localizacao sob a mesa a visao e o acesso ficam prejudicados, o operador tendo de se curvar ou abaixar para acessar a ferramenta; o giro de 180 graus altera totalmente a ergonomia dos controles dificultando seu uso, e por ahi vai. Alem de dificuldades no acesso e na utilizacao dos controles, a inversao do posicionamento ocasiona obviamente inversao no sentido em que a gravidade se exerce, o peso que antes ajudava agora atrapalha. De fato, a inversao gera tantos inconvenientes e dificuldades que para efetuar os ajustes (e a troca de fresas) e' mais facil e mais rapido remover a tupia do encaixe, coloca-la sobre o tampo da bancada, efetuar os ajustes e entao recoloca-la.


Todavia a ideia de colocar a tupia de mao invertida em bancada visa facilitar o uso da ferramenta, nao complicar, e isso de ter de tirar e recolocar a tupia a cada setagem, ajuste e/ou troca de fresas por certo nao e' uma facilitacao, mas sim uma enchecao de saco! O engenho criativo dos usuarios e da industria sendo o que e', em tempo um vasto elenco de diferentes metodos e maneiras foi desenvolvido para permitir operar a tupia na bancada sem o desconforto e a perda de tempo de ter de remove-la a cada ajuste. Desconsiderando — certamente nao por inuteis, mas por excessivamente numerosas — as incontaveis solucoes 'caseiras', vejamos algumas implementacoes industriais mais ou menos consagradas...

Provavelmente o metodo mais consagrado para ajuste de profundidade da tupia por cima da mesa e' o uso de elevadores. Como as tupias de base fixa podem ter facilmente o motor removido da base, os elevadores sao feitos com encaixes que permitem fixar esses motores, tanto os mais potentes, de 3,25CV, como os menores, de 2,5CV. Um sistema de rosca acionado por uma manivela encaixada desde o topo da mesa baixa e ergue o elevador e o motor a ele preso — e usualmente pode erguer tanto que exterioriza para acima do tampo as porcas de aperto da pinca, permitindo assim com muito mais conforto para o usuario a troca de fresas por cima da mesa.

Elevador Unilift, da Woodpeckers,
que aceita inclusive tupias de mergulho

Pesquisas e desenvolvimentos de novas variantes de elevadores nao cessaram, como o demonstram por exemplo o novo modelo Unilift, da Woodpeckers, que utiliza subplacas que permitem adaptar-lhe qualquer modelo de tupia, inclusive as de mergulho, e  o modelo PowerLift, da MLCS, com acionamento eletrico, eletronicamente controlado.

Desnecessario dizer que no nosso mercado nao iremos encontrar `a venda, nem tupias de base fixa, nem motores avulsos, muito menos elevadores de tupia. Para a maioria de nos, sem acesso aos mercados exteriores resta praticamente como unica opcao utilizar tupias de colunas.

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PowerLift da MLCS, nao e' mais fabricado
O primeiro parametro na escolha de uma tupia de  mesa e' a potencia: quanto maior, melhor. Depois, tratando-se de tupias de colunas, que tenha regulagem fina da profundidade, a mais ampla e mais precisa possivel. E entao, que seja facil efetuar (e reverter) as modificacoes necessarias para podermos bem usa-la na mesa.

A primeira, a mais necessaria — de fato, no meu entender, indispensavel — modificacao que teremos de efetuar em uma tupia de mergulho para bem a usarmos na mesa e' remover-lhe as molas. Tentar utilizar na mesa uma tupia com as molas e' receita certa para dor de cabeca. A forca necessaria para erguer a tupia tera de vencer o peso da maquina somado `a tensao das molas e certamente essa forca sera suficiente para arrancar a placa de seu encaixe, a menos que esteja aparafusada, e bem aparafusada. Ou entao teremos que tentar prende-la no lugar com o queixo enquanto usamos ambas as maos para empurramos a tupia para cima e tentamos estabiliza-la a uma certa altura contra a constante pressao das molas. Como dizem os Grandes Irmaos, "eu estive la, fiz isso". E posso assegurar que nao, nao e' nada engracado, ou eficiente. Dois, tres dias disso e, acreditem, procurar na Rede o metodo de remover as molas e' inescapavel.

E sim, e' bem facil encontrar na Rede a maneira de tirar as molas de praticamente qualquer marca e modelo de tupia de colunas. Geralmente e' um processo nao muito complicado e, nas boas marcas, nao implica em perda de garantia.
Bosch GOF 2000 CE
tem um botao na base que ativa e desativa as molas

Alias, algumas boas marcas como a Bosch e a Triton por exemplo, incluem a remocao ou desativacao das molas como recursos disponiveis em alguns de seus modelos, ja contemplando a possibilidade de seu uso em mesa (embora nenhum desses modelos — surpresa!! — esteja disponivel por pindorama).
Triton TRB001
e' so afrouxar a tampa preta no topo `a direita
e a mola sai

Uma outra modificacao, nao indispensavel mas bastante util, e' remover, quando existir, a mola da trava. Isso evitara ter de usar uma mao, ou um dedo, apenas para soltar a trava a cada vez que se quiser reajustar a profundidade da fresa e, mais importante, permitira que se possa elevar a tupia pelo centro, empurrando com apenas uma mao.

Com essas duas modificacoes a regulagem da altura da fresa na operacao em mesa de uma tupia de colunas se torna eficiente e relativamente facil.

Ha ainda, claro, inumeros projetos de jigs e acessorios desenvolvidos por usuarios, como ha varios itens disponibilizados comercialmente, tudo visando aumentar essa facilidade.

Nao testei todos, nem perto, mas dos poucos que testei houve um acessorio que realmente me pareceu facilitar significativamente o processo:
a PlungeBar, da WoodRat

http://www.woodrat.com/plungebars.html
que infelizmente tambem nao esta disponivel no nosso lamentavel mercado mas imagino possa facilmente ser, mm, reprodutivel..




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quarta-feira, 25 de maio de 2011

Tupia na mesa — A Guia


Usa-se uma guia na mesa de tupia para efetuar-se cortes retos.

Pode ter uma construcao extremamente simples, nada mais que uma mera ripa de compensado fixa ao tampo por grampos, ou pode ser um engenho altamente complexo. Tudo pode variar — e de fato parece haver um projeto diferente de guia para cada construtor, industrial ou privado — mas, alem de uma fixacao rigida quando em uso, dois fatores serao sempre essenciais e mandatorios na guia: sua face deve ser absolutamente reta, e em perfeito esquadro com o tampo.

A distancia da guia `a fresa e' um dos dois parametros ajustaveis na mesa de tupia (o outro sendo a altura da fresa acima do tampo) e determinara a profundidade do corte no eixo horizontal. Uma fixacao firme garantira essa distancia permaneca imutavel durante todo o(s) corte(s). A guia deve ser absolutamente reta para que igualmente o corte saia absolutamente reto. E em perfeito esquadro com o tampo quer dizer perfeitamente paralela ao eixo da fresa, assegurando um corte exato e repetivel. Isso e' o essencial. O resto sao detalhes.

Mas, ja se disse, o inferno esta nos detalhes...

Uma guia extremamente simples como aquela guia ilustrada na foto acima com certeza sera efetiva, capaz de bem atender a consideravel parcela dos inumeros procedimentos que podem ser realizados em uma tupia de mesa. So que uma consideravel parcela nao e' tudo. E alem disso ela e' falha no quesito repetibilidade; uma vez modificada a distancia daquela guia `a fresa, sera muito dificil voltar `a distancia anterior com precisao significativa. E se uma certa imprecisao pode ate ser relevada em certos usos, em outros pode ser um problemao...


Por isso, para ampliar-se o leque de procedimentos passiveis de ser efetuados na tupia de mesa e tambem a precisao de seu posicionamento, a guia foi sendo modificada nisso e naquilo, recebendo acessorios aqui, implementos ali, adaptacoes acola.

Se e' certo nenhum sistema de guia podera clamar possa fazer TUDO — ate porque varios procedimentos em tupia de mesa sao feitos SEM guia — muitos usuarios e diversos fabricantes tem procurado desenvolver sistemas os mais completos possivel, como o Super Sistema LS da INCRA (http://goo.gl/f5WVI) ilustrado na foto ao lado.


A versatilidade da tupia e' enorme, a variedade de operacoes que podem ser feitas com seu uso, imensa. No que tange a como configurar uma guia, o complexo equilibrio entre custo, simplicidade, capacidade operacional e facilidade de uso havera de ser como sempre equacionado, primeiro pelas necessidades funcionais, depois pelo engenho criativo, e entao pela capacidade de compra do usuario.

terça-feira, 24 de maio de 2011

Tupia na mesa — A Placa



Aparafusar a base da tupia diretamente ao tampo e' certamente a opcao mais simples de fixacao da tupia `a mesa, mas essa simplicidade implica em limitacoes como, por exemplo, a espessura do tampo reduzira a altura a que a fresa pode ser elevada, remover a tupia da mesa (para troca de fresas, ajustes, regulagens, limpeza, etc.) sera um processo consideravelmente demorado, o peso da tupia muito provavelmente produzira uma 'barriga', um afundamento no topo. Adicionalmente, dado que para obter-se nos cortes resultados consistentes, repetiveis, a fresa devera sempre estar em exato esquadro com o plano da mesa, esse esquadro tera de ser checado e acertado a cada vez que a tupia seja utilizada. A maneira mais eficiente de evitar-se esses problemas e' utilizar-se uma placa para adaptar a tupia na mesa.

O material da placa devera ser absolutamente plano e tao rigido quanto possivel, os lados perfeitamente paralelos. Na pratica o que mais se utiliza sao laminas de aluminio, aco ou polimeros rigidos, como o fenolico, lexan (policarbonato), acrilicos, etc., cortadas em retangulo e dimensionadas geralmente ao redor de 25x30cm, e com espessura suficiente, variando conforme o material, para que nao sofram qualquer deformacao pelo peso da tupia. (Embora usualmente as placas sejam feitas com formato retangular, evidentemente nada impede o uso de outros formatos, como redondos, ovalados, etc. — embora eu nao consiga ver qualquer vantagem nisso.)  A placa usualmente fixa-se `a mesa por encaixe em um recorte cortado no tampo, e e' muito importante tal encaixe ocorra tao perfeitamente quanto possivel, sem qualquer vao entre placa e mesa, sem ressaltos, sem rebaixos, para que a madeira sendo cortada possa deslizar sem obstrucoes ou desniveis, como igualmente e' importante a placa possa ser removida do encaixe com facilidade quando for necessario acessar a tupia e com igual facilidade possa ser recolocada, sem perder os alinhamentos. A tupia sera firmemente aparafusada `a placa de forma a garantir um perfeito esquadro entre o eixo da tupia e a superficie da placa.

A precisao no esquadro da fresa e a perfeicao no alinhamento das partes serao tao mais necessarios quanto mais precisos tenham de ser os cortes desejados. Em um processo mais grosseiro, como recortar bordos em um rodape por exemplo, evidente que variacoes de milimetro passarao desapercebidas, nao afetarao o resultado. Ja em cortes mais delicados, como sambladuras, a margem de erro tera de ser na faixa de milesimos de milimetro, exigindo ajustes perfeitos.
No topo, disco com diametro padrao; no centro, com encaixe para
guias de corte; embaixo, para ser furado com qualquer diametro desejado
Obvio, no centro da placa havera uma abertura circular para dar passagem `a fresa. Idealmente, o diametro desse orificio sera pouquissimo maior que o diametro da fresa, tanto para evitar um vao maior entre fresa e placa que possa interferir na precisao dos cortes, como para reduzir a quantidade de serragem que caia para baixo, sobre a tupia. Como os diametros das fresas variam, e' desejavel que o orificio de passagem igualmente possa variar; por isso usualmente o orificio central das placas esta preparado para receber discos adaptadores. Esses discos permitem nao apenas variar o diametro do furo da fresa, como podem permitir a adaptacao de outros redutores, guias de corte, etc.
Conjunto de guias de corte











Afora o encaixe justo e proprio peso da tupia existem variados metodos, tanto para assegurar-se a placa nao fique nem saliente nem afundada, como para garantir a fixacao da placa no seu leito. O metodo mais empregado para garantir o adequado nivelamento da placa e' atraves de parafusos ao nivel da borda da placa, rosqueados nesta ou engastados na mesa. Para melhor asseverar a fixacao da placa, o mais comum e' utilizar-se imas, embora haja quem prefira parafusos.

Adicionalmente e' comum, e desejavel, haja nas proximidades do orificio central da placa provisao para encaixe do pino de seguranca, utilizado como apoio quando se efetuam cortes curvos, sem guia na mesa.