quinta-feira, 26 de maio de 2011

Tupia na mesa — A Altura da Fresa

Como mencionado na postagem anterior, a tupia de mesa tem duas setagens: a distancia da guia, e a altura da fresa. A distancia da guia `a fresa determinara a profundidade do corte no eixo horizontal, e a altura da fresa acima do tampo, a profundidade do corte no eixo vertical. Se a setagem da distancia da guia em geral e' um processo simples, intuitivo, setar a altura da fresa pode ser uma longa historia...

Para comeco de conversa, ha dois tipos fundamentais de tupias de mao.
Makita 3601B

Em primeiro lugar — ate porque foram os primeiros modelos a ser desenvolvidos, logo apos a I Guerra Mundial — temos as tupias de base fixa, que regulam a altura (ou profundidade) da fresa movendo, usualmente atraves de algum mecanismo de rosca, o motor para cima ou para baixo por dentro da base e entao travando a altura. Embora haja inumeros fabricantes mundo afora produzindo diferentes modelos de tupias com base fixa, no limitadissimo mercado de pindorama (excetuadas as tupias laminadoras que, sim, tem base fixa, mas por sua baixa potencia em geral nao se prestam para montagem em bancada) ha apenas um modelo disponivel, a Makita 3601B. (Nesse modelo, a regulagem da altura da fresa e' efetuada girando aquele anel verde ate a fresa alcancar a altura desejada, e ahi travando o ajuste com o parafuso.)
ELU MOF 98
Um dos primeiros modelos fabricados pela
industria que, em 1949, inventou a tupia de colunas

Pelo final da decada de 40 do seculo passado, foi desenvolvido e comercializado o outro tipo, a tupia de colunas, tambem chamada de mergulho, que oferece nao apenas uma regulagem mais precisa e repetivel da altura da fresa, mas tambem seguranca bem maior na operacao e tem a fundamental vantagem de permitir que a altura da fresa possa ser variada, para mais ou para menos, mesmo com a maquina em operacao. Este tipo de tupias e' feito para ser operado com ambas as maos — o que garante melhor controle e maior seguranca na operacao — e a altura da fresa pode ser aumentada simplesmente soltando a trava e empurrando o corpo da tupia contra a base. Isto fara o corpo deslizar pelas colunas, mergulhando mais a fresa para alem da base. Esse processo pode ser efetuado com a maquina em operacao, e o curso pode voltar a ser travado em qualquer ponto, a qualquer momento. O final do curso e' estabelecido por um batente regulavel com precisao que determinara a maxima altura a que a fresa pode ser exteriorizada. A qualquer momento, soltando a trava e relaxando a pressao contra a base, um sistema de molas fara retornar o corpo da tupia, recolhendo a fresa. Adicionalmente, os modelos mais modernos de fresa de mergulho dispoem ainda de uma regulagem fina da profundidade da fresa, assegurando precisao na faixa de milesimos de milimetro.

Mas se, com uma vantagem aqui, uma limitacao ali, os sistemas de regulagem da altura da fresa funcionam a contento nas tupias de mao usadas na mao, quando colocadas na mesa, de cabeca para baixo, a coisa muda de figura. Pela localizacao sob a mesa a visao e o acesso ficam prejudicados, o operador tendo de se curvar ou abaixar para acessar a ferramenta; o giro de 180 graus altera totalmente a ergonomia dos controles dificultando seu uso, e por ahi vai. Alem de dificuldades no acesso e na utilizacao dos controles, a inversao do posicionamento ocasiona obviamente inversao no sentido em que a gravidade se exerce, o peso que antes ajudava agora atrapalha. De fato, a inversao gera tantos inconvenientes e dificuldades que para efetuar os ajustes (e a troca de fresas) e' mais facil e mais rapido remover a tupia do encaixe, coloca-la sobre o tampo da bancada, efetuar os ajustes e entao recoloca-la.


Todavia a ideia de colocar a tupia de mao invertida em bancada visa facilitar o uso da ferramenta, nao complicar, e isso de ter de tirar e recolocar a tupia a cada setagem, ajuste e/ou troca de fresas por certo nao e' uma facilitacao, mas sim uma enchecao de saco! O engenho criativo dos usuarios e da industria sendo o que e', em tempo um vasto elenco de diferentes metodos e maneiras foi desenvolvido para permitir operar a tupia na bancada sem o desconforto e a perda de tempo de ter de remove-la a cada ajuste. Desconsiderando — certamente nao por inuteis, mas por excessivamente numerosas — as incontaveis solucoes 'caseiras', vejamos algumas implementacoes industriais mais ou menos consagradas...

Provavelmente o metodo mais consagrado para ajuste de profundidade da tupia por cima da mesa e' o uso de elevadores. Como as tupias de base fixa podem ter facilmente o motor removido da base, os elevadores sao feitos com encaixes que permitem fixar esses motores, tanto os mais potentes, de 3,25CV, como os menores, de 2,5CV. Um sistema de rosca acionado por uma manivela encaixada desde o topo da mesa baixa e ergue o elevador e o motor a ele preso — e usualmente pode erguer tanto que exterioriza para acima do tampo as porcas de aperto da pinca, permitindo assim com muito mais conforto para o usuario a troca de fresas por cima da mesa.

Elevador Unilift, da Woodpeckers,
que aceita inclusive tupias de mergulho

Pesquisas e desenvolvimentos de novas variantes de elevadores nao cessaram, como o demonstram por exemplo o novo modelo Unilift, da Woodpeckers, que utiliza subplacas que permitem adaptar-lhe qualquer modelo de tupia, inclusive as de mergulho, e  o modelo PowerLift, da MLCS, com acionamento eletrico, eletronicamente controlado.

Desnecessario dizer que no nosso mercado nao iremos encontrar `a venda, nem tupias de base fixa, nem motores avulsos, muito menos elevadores de tupia. Para a maioria de nos, sem acesso aos mercados exteriores resta praticamente como unica opcao utilizar tupias de colunas.
Elevador eletrico PowerLif, da MLCS

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O primeiro parametro na escolha de uma tupia de  mesa e' a potencia: quanto maior, melhor. Depois, tratando-se de tupias de colunas, que tenha regulagem fina da profundidade, a mais ampla e mais precisa possivel. E entao, que seja facil efetuar (e reverter) as modificacoes necessarias para podermos bem usa-la na mesa.

A primeira, a mais necessaria — de fato, no meu entender, indispensavel — modificacao que teremos de efetuar em uma tupia de mergulho para bem a usarmos na mesa e' remover-lhe as molas. Tentar utilizar na mesa uma tupia com as molas e' receita certa para dor de cabeca. A forca necessaria para erguer a tupia tera de vencer o peso da maquina somado `a tensao das molas e certamente essa forca sera suficiente para arrancar a placa de seu encaixe, a menos que esteja aparafusada, e bem aparafusada. Ou entao teremos que tentar prende-la no lugar com o queixo enquanto usamos ambas as maos para empurramos a tupia para cima e tentamos estabiliza-la a uma certa altura contra a constante pressao das molas. Como dizem os Grandes Irmaos, "eu estive la, fiz isso". E posso assegurar que nao, nao e' nada engracado, ou eficiente. Dois, tres dias disso e, acreditem, procurar na Rede o metodo de remover as molas e' inescapavel.

E sim, e' bem facil encontrar na Rede a maneira de tirar as molas de praticamente qualquer marca e modelo de tupia de colunas. Geralmente e' um processo nao muito complicado e, nas boas marcas, nao implica em perda de garantia.
Bosch GOF 2000 CE
tem um botao na base que ativa e desativa as molas

Alias, algumas boas marcas como a Bosch e a Triton por exemplo, incluem a remocao ou desativacao das molas como recursos disponiveis em alguns de seus modelos, ja contemplando a possibilidade de seu uso em mesa (embora nenhum desses modelos — surpresa!! — esteja disponivel por pindorama).
Triton TRB001
e' so afrouxar a tampa preta no topo `a direita
e a mola sai

Uma outra modificacao, nao indispensavel mas bastante util, e' remover, quando existir, a mola da trava. Isso evitara ter de usar uma mao, ou um dedo, apenas para soltar a trava a cada vez que se quiser reajustar a profundidade da fresa e, mais importante, permitira que se possa elevar a tupia pelo centro, empurrando com apenas uma mao.

Com essas duas modificacoes a regulagem da altura da fresa na operacao em mesa de uma tupia de colunas se torna eficiente e relativamente facil.

Ha ainda, claro, inumeros projetos de jigs e acessorios desenvolvidos por usuarios, como ha varios itens disponibilizados comercialmente, tudo visando aumentar essa facilidade.

Nao testei todos, nem perto, mas dos poucos que testei houve um acessorio que realmente me pareceu facilitar significativamente o processo:
a PlungeBar, da WoodRat

http://www.woodrat.com/plungebars.html
que infelizmente tambem nao esta disponivel no nosso lamentavel mercado mas imagino possa facilmente ser, mm, reprodutivel..




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6 comentários:

  1. Paulo,
    Muito boa suas dicas para inverter a tupia. A considerar sua experiência neste assunto, e meu interesse em embarcar nesta onda, sugiro a você um novo assunto a ser publicado: As Regras de Ouro na Utilização da tupia.

    Coisas como: qual é a altura ideal da fresa ao se abrir um canal? Devo usar a profundidade do canal ou devo fazer em várias passadas? qual a velocidade de rotação (para tupias que regula a velocidade) a ser escolhida para cada tipo de fresa? E a velocidade de deslocamento da tupia - ou da peça, no caso da tupia estar fixa - que devo proceder para evitar queimar a madeira?

    Estou ansioso para ler seu próximo post...

    Um Abraço
    Éric

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  2. Muito grato pelo comentario, Éric, e peco perdao pela demora em responde-lo.

    Sua sugestao esta anotada, mas nao sei se existem Regras de Ouro para usar tupia. Cada caso e' um caso, e a regra de ouro aqui sera frequentemente o risco inaceitavel ali.

    Na medida de minha assumidamente limitada capacidade, quando for o caso a gente tentara ver que regras se aplicam, se houver regras, hehe.

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  3. Muito bom o seu blog cara! Eu também sofro muito com nosso lamentável mercado nacional. Acho que, como por aqui no passado o trabalho manual era visto como algo degradante, coisa de escravo ou empregado, ferramentas não são mesmo o nosso forte.
    A propósito, esta é a tupia que eu gostaria de ter. Claro, não se acha por aqui.
    http://www.boschtools.com/Products/Tools/Pages/BoschProductDetail.aspx?pid=1617EVSPK
    Com esta base para a mesa:
    http://www.boschtools.com/Products/Tools/Pages/BoschProductDetail.aspx?pid=RA1165

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  4. Prezado Paulo,
    Estou interessado em construir uma TUPIA de bancada, e pretendo fixar as fresas com um mandril de 5/8". Será que é possível? O mandril ficará fixado na ponta do eixo do motor. É uma tupia para serviços leves e amadores. O que vc acha?

    Jadir

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  5. Nao da certo.

    O problema e' que uma tupia funciona com giros muito altos (8-30.000rpm). Um mandril tera insuficiente area de contato com a fresa, nao dara suficiente 'pega'. E, alem disso, nao sao adequadamente balanceados para tais velocidades. O risco de a fresa (ou o proprio mandril) escapar e' muito alto, e as consequencias, potencialmente nefastas.

    E em giros mais baixos, as fresas nao funcionarao adequadamente.

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    1. Boa dica, Obrigado e um abraço

      Jadir

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