Enquanto o oleo de tungue no tampo vai secando, resolvi usar o outro pedaco de muiracatiara 'com casca' que havia conseguido para fazer a base do futuro balcao, cujo formato final ainda permanece um manancial de duvidas para mim...
Depois de par de dias considerando diferentes abordagens possiveis para a construcao da base, acabei por optar por uma saia vertical, com as emendas laterais em esquadria. Fiz os cortes tomando cuidados para houvesse minima perda de material, para permitir uma continuidade fluida das cores e padroes na emenda. Usando dado set na serra de bancada fiz um rebaixo na borda interna do topo das pranchas ja serradas e entao a colagem, utilizando um pequeno bloco de madeira preso por grampos ao lado interno da emenda e que ainda recebeu uma fixacao adicional com parafusos apos a secagem da cola. Adicionalmente, a linha de cola foi ainda reforcada por milicavilhas (palitos de dente) na transversal da emenda. Montada a 'saia', serrei, encaixei e colei nos rebaixos do topo uma prancha de compensado de 20mm, 'prensada' com alguns parafusos. Quando a cola secou, os parafusos foram removidos e os furos preenchidos por milicavilhas, cola e serragem.
Serrei os pes de um barrote de itaubao. Uma leve modelagem com uma plaina bock, e cada um deles, fixo por um grampo, teve uma face colada `a face interna da saia com cola de poliuretano. Adicionamente uns retalhos foram igualmente colados, fixos por pinos F, para estabilizar as bases dos pes, juntamente com um longo e grosso parafuso no centro, atraves do compensado.
Como os pes traseiros ficaram sem apoio atras, colei e parafusei uma cantoneira para reforco.
Com isso, a construcao tendo resultado solida o bastante para eu poder caminhar em cima, hora de dar uma lixada e aplicar as devidas protecoes contra mofo e cupins, e entao dar por concluida essa fase de construcao da base.
Com a base feita, fiquei olhando a obra, ao vivo e em fotografias, pensando em como evoluir o movel pois, como ja mencionei na abertura, ainda nao tenho qualquer certeza quanto ao design. Inumeras hipoteses fermentando, ainda matutando fui consultar o travesseiro, confiando naquela funcao que o separador de orelhas executa em um inconsciente segundo plano. Acordei com a solucao, obvia.
E', como eu nao canso de afirmar, um perigo dar redea solta ao separador de orelhas!
Junto com a solucao, constatei o desgracado morador do sotao havia trabalhado em surdina durante todo o processo de construcao da base de forma a me conduzir ou, melhor, me embretar a uma forma construtiva da qual procuro fugir sempre que possivel.
O que creio, com alguma trepidacao, vira a seguir. (Se eu nao conseguir achar um jeito de escapar...)
Enquanto deixo secar tabicadas algumas taboinhas das novas madeiras para, eventualmente, fazer naoseioque com elas, decidi fazer um conjunto de moveis para substituir um armario de sala de jantar em que os malditos cupins de madeira seca tambem inventaram de fazer ninho.
A intencao e' iniciar por um balcao, e o estimulo para construi-lo veio da prancha de muiracatiara que veio com o lote recente de madeiras que adquiri. A prancha veio com brancal e marcas da casca em ambas as laterais, e o primeiro passo foi reduzir-lhe a largura, nisso cortando fora uma dessas laterais. Como a prancha e' muito pesada para ser manipulada com facilidade e apresentava irregularidades, inviavel leva-la para a serra de bancada; a solucao foi fazer o corte com uma serra circular manual empregando uma guia para manter o corte reto.
O passo seguinte do aparelhamento da peca, aplainar-lhe as faces. Infelizmente, por seu peso e largura, algo inviavel de efetuar como usual com desempeno/desengrosso, o que me levou a encarar o processo com plainas manuais. Tao logo fiz o rebaixamento das areas mais salientes, deu para perceber em uma das extremidadas havia rachaduras consideraveis; com o que, antes de continuar a plainagem, resolvi aplicar umas caudas-de-andorinha, ou 'gravatinhas', nas areas afetadas, visando prevenir as rachaduras progredissem, o que fiz empregando uns restos de imbuia.
Quando, devidamente colados os reparos, a operacao com as plainas manuais removeu todas as 'montanhas' mais altas, e as faces resultaram aceitavelmente planas e paralelas, empreguei uma lixadeira de cinta manual com lixa 60G para regularizar bem as superficies e entao progredi com G80, G120 e G180 usando lixadeira roto-orbital ate a hora do envenenamento...
A prancha ao final do aparelhamento
Imediatamente apos a aplicacao de cupinicida
Por que a pressa em aplicar o veneno? Porque todo aquele brancal na borda
e' poderosissimo chamativo, uma bateria de imas de terras raras para atrair cupins e
outros xilofagos. E e' verao...
Tao logo o cupinicida secou foram aplicadas duas demaos de oleo de tungue visando, tanto reduzir a evaporacao do veneno, como proteger o lenho de possiveis manchas e que tais, considerando as inumeras futuras manipulacoes a que inescapavelmente sera submetido.
Historias que presume-se serao contadas. Aqui neste batcanal. Qualquer bathora dessas...
Ha mais de ano, como ate contei aqui, resolvi me presentear com uma kanna, uma plaina de acabamento japonesa. Nenhuma queixa quanto ao desempenho, desde o primeiro dia, mas...
Lendo sobre a utilizacao dessas plainas, em inumeros sites, blogs e foruns constatei uma constante declaracao: os dai — os corpos de madeira dessas plainas japonesas — necessitam ser 'afinados' pelo usuario regularmente. Isso porque madeira trabalha, se expande e dilata com as variacoes de umidade e temperatura, e isso pode se traduzir, como geralmente se traduz, em variacoes da geometria da sola. Como no entanto o desempenho da ferramenta estava perfeitamente dentro das minhas expectativas, e como sou adepto de que nao se mexe em time que esta ganhando, resolvi obviamente deixar a coisa quieta. Porem quando nessa semana que passou a minha plaina entrou no processo geral de afiacao de findiano — a proposito: FELIZ ANO NOVO! — e fui setar a lamina recem afiada, reparei uma nitida degradacao na performance da dita cuja.
-- oOo --
Eu sempre tive curiosidade em saber por que cargas d'agua os japoneses, com sua metalurgia milenarmente primorosa, utilizavam e utilizam praticamente apenas plainas de madeira, quando sabidamente madeira e' muito menos estavel do que metais.
A razao, pelo que li, e' bem simples. Os marceneiros e carpinteiros de la utilizam plainas continuadamente, para tudo no seu dia-a-dia, passam o dia todo na lide e carregando essas ferramentas de todos os tamanhos para la e para ca. E madeira e' bem, bem mais leve do que metais; plainas metalicas seriam fatigantes.
Adicionalmente, exatamente para reduzir o esforco de plainar, as solas dessas plainas sao condicionadas: faz-se um minimo rebaixo, uma infima concavidade na sola entre o nariz da plaina e a porcao imediatamente em frente ao gume, de tal forma que quando se esta utilizando a ferramenta apenas essas duas areas fazem contato, reduzindo assim consideravelmente o atrito no plainar. Ha inclusive plainas especialmente projetadas exatamente para produzir esse rebaixo, as tachi-kanna.
Tachi-kanna
Rebaixo esse que evidentemente eu nunca me atrevera a executar na minha.
-- oOo --
So que quando fui examinar a sola, depois de reparar na dificuldade de conseguir setar adequadamente a plaina para cortes muito rasos, aplicando uma regua pude constatar que a regiao entre o nariz e o gume, ao inves de estar levemente rebaixada apresentava era uma convexidade.
Fiquei, claro, sem escape e resolvi encarar a bronca. Nao dispondo de uma tachi-kanna — que, consta, se aplica na transversal dos veios da sola — resolvi executar o tal rebaixamento com raspilhas, na longitudinal.
Como sempre gosto de me preparar para o pior cenario, tive uma surpresa agradabilissima: Foi facil, facilimo de fazer. Em poucos minutos, uma barbada.
Imagino possa ter ficado evidente nas fotos acima o espaco que sofreu o rebaixo, demarcado pelas linhas verdes. Um quase nada, fracao de milimetro. Mas o resultado...
Utilizando um martelinho adequado calibrei a profundidade do corte para tao raso quanto minha pouca paciencia permitiu, e empreguei uma sobra de cedro-rosa para os testes.
Rapaiz!
A plaina deslizou macia, as fitas sairam lindonas, consistentes, cheias e finissimas. E a superficie do cedro... Mas nem bunda de nenem!
Muito, muito melhor do que jamais eu tinha experimentado, sem a menor duvida.
Nao tenho certeza, claro, nem tenho uma plaina ocidental de madeira para testar, mas fica a impressao esse simples rebaixo pode muito bem ser aplicado nelas. Talvez com resultados semelhantes?
Fica a sugestao, para alguem bravo o bastante experimentar e depois, espero, nos contar...
Entre tantas, inumeraveis outras coisas que surgem para fazer quando e' tempo de ferias, no que tange `a marcenaria estou lendo James Krenov, dando manutencao ao que precisa de manutencao na 'oficina' e dando uma limpada geral no ambiente.
Quanto ao "gnomo russo", o "cara que plainava tudo" — algumas das alcunhas com que presentearam Mr. Krenov, nao sem alguma maldade — tinha uma particular filosofia pessoal, e uma particular filosofia de trabalho, e e' sobre isso que escreveu nos livros que estou lendo. Sobre algumas coisas eu ja tinha conhecimento por outras leituras e audicoes, mas o que mais me surprendeu foi o velho mestre nao desdenhava de utilizar ferramentas motorizadas e, como todo marceneiro 'das antigas' que jamais conheci ou ouvi mencionar, tinha uma especial afeicao pela serra de fita...
Mas mais que tudo, pelo menos ate agora, as leituras serviram mesmo foi para me estimular a dar uma 'roubada' nas chamadas boas praticas e ceder outra vez `a minha famigerada curiosidade: apesar de sabe-las mais umidas do que o recomendavel, resolvi dar uma brincada com as novas madeiras que adquiri, hehe.
Aproveitando (ou usando como desculpa esfarrapada) o fato de o clima ter estado, estar e prometer continuar muito umido, a umidade relativa do ar raramente abaixo de 95%, resolvi cortar uns pedacos das extremidades 'piores' das pranchas de marfim-rana e jequitiba para tirar-lhes a temperatura, digamos assim.
Comecei entao por passar os pedacos nas plainas, desempeno e desengrosso, e na serra de bancada, para aparelha-los em quatro faces retas. E ahi, aproveitei para melhorar meu treino na que Mr. Krenov afirma ser a mais importante funcao da serra fita: desdobrei os pedacos em pranchas mais finas e coloquei-as tabicadas. (Assim desse jeito a superficie dobra a cada desdobre e a espessura se reduz, o que propicia consideravel aceleracao na secagem; e o clima umido em tese evita que essa aceleracao produza maiores traumas — pelo menos sao as consideracoes ou, talvez melhor, racionalizacoes, hehehe.) E, ja que estava mesmo na funcao de desdobrar, aproveitei a setagem da serra e fatiei uns restos de imbuia.
Falar em restos, encontrei um resto de catuaba guardado ha anos, sobra de quando eu andava fazendo caixas, mais um retalho de cedro rosa, sobra dos armarios, e resolvi fazer um painel:
Aproveitando um intervalo entre as chuvas (sim, o velho Pedro esta outra vez com a corda toda, chorando mares) resolvi dar azo `a minha curiosidade e cortei dois pedacos de 70cm de comprimento, um da taboa de jequitiba, o outra da de marfim-rana. Basicamente porque queria dar uma limpada nelas, ver que cara mesmo e' que tem esses exemplares de essencias ineditas na minha experiencia e, se possivel, dar uma lidada para ver da trabalhabilidade delas...
Bueno, a lida vai ter de esperar. Uns meses: estao, ambas, ainda com teor de umidade excessivo. De qualquer modo, dei uma plainada bem superficial nas duas, nao para tentar qualquer aparelhamento, mas para matar a curiosidade quanto ao aspecto...
As imagens menores mostram as taboas como ficaram depois de levemente plainadas; a imagem maior no centro, apos aplicacao de um pouco d'agua para acentuar os veios.
Acho que tem promessa. E nao pouca promessa, hehe.
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Mas ahi, enquanto amolava a lamina da plaina que tinha acabado de usar — guarde sempre ferramentas de corte com todo o fio, e' uma pratica que me recomendaram, e que adotei e recomendo — me veio a memoria de uma conversa que esta-se desenvolvendo no forum Madeira! sobre afiacao, e pensei talvez algum de meus sete fieis leitores pudesse ter interesse em algumas informacoes basicas sobre o tema...
Bem afiar uma lamina, de ferramenta, de faca, qualquer lamina, consiste fundamentalmente em duas etapas: o desgaste (grinding) e o polimento ou assentamento (honing). (Os termos em ingles entre parenteses, porque nao ha uma terminologia uniforme em portugues; esses sao os termos que eu uso, outros usam outros. Ja os termos em ingles sao exatos, e facilitam consultas pela Rede.)
O desgaste consiste em remocao de material da lamina para construir ou reconstruir uma geometria (angulo do bizel, por exemplo), corrigir defeitos macroscopicos (dentes, entortamentos, etc.), e e' usualmente feito utilizando abrasivos com grana baixa (de 60 a 600G). Para efetuar o desgaste emprega-se usualmente, ou rebolo ou prato rotatorio, com acionamento manual ou motorizado, ou pedras de afiar. E ahi ja comeca a engronha...
O fato e' que, como ja comentei, nao ha qualquer consenso entre afiadores quanto a metodos, taticas, jeitos ou maneiras de afiar. Cada um tem o seu e o de cada um e' que e' o melhor. No que tange a desgaste. Ha quem defenda o uso de motoesmeril e quem o renegue, por mil razoes. Ha quem defenda o uso de rebolos de baixa rotacao, ou de acionamento manual e, claro, quem renegue, por dez mil razoes. Desgaste com esmeril produz evidentemente um bizel concavo, e ha milhoes de razoes para defender, e milhoes de razoes para atacar o bizel concavo. Pratos rotatorios e cintas de lixa, que produzem bizel plano... a mesma coisa, o mesmo desfile de razoes pro e contra. Quanto a afiar manualmente em pedras, utilizando guias para obter um bizel plano, ou afiando na mao livre, o que produz um bizel convexo, ahi ja nos aproximamos de bilhoes de razoes — porque ha literalmente milhares de diferentes tipos de pedras, e isso so para comeco de conversa.
Para certas ferramentas o bizel mais rude que resulta do desgaste ja e' suficiente: machados, machetes, facoes, faca de mesa, etc.
Como?...
Sim, com certeza! Tanto ha inumeros que afirmam que as ferramentas citadas podem e devem se beneficiar de um fio mais afinado, como inumeros outros ha afirmando que o desgaste e' mais que suficiente para o adequado emprego de formoes, plainas, etc. Nao ha consenso, mas parece haver uma maioria que reza pela cartilha de que formoes, plainas e quetais merecem sempre uma afiacao mais apurada. Esse apuro se efetua polindo as superficies planas que formam o gume, o apice do bizel.
O polimento se realiza com uma progressao de abrasivos de grana media (800 a 1200G) a alta (2000 a 30000G). E aqui a controversia dispara, o numero de razoes pro e contra isso ou aquilo e' algum multiplo do numero de praticantes de afiacao. Sim, porque claro que ha os que nao sao contra, nem a favor, muito antes pelo contrario...
E entao? Como se faz para sobreviver a esse vendaval?
So tem um jeito: pesquisando o que e' viavel e partindo para a pratica e experimentacao, para quem e' partidario de fazer as coisas por conta propria. Ou buscando alguem que possa introduzi-lo nessa selva com alguma orientacao, instrui-lo no caminho das pedras (Mil perdoes!, mas nao resisti.).
Talvez em algum forum? O Madeira!, por exemplo, esta `as ordens, hehe... (http://xilofilos.com/viewtopic.php?f=20&t=2762#p26014)
Abaixo, pensando ilustrar variedades e antagonismos, uma lista de uns poucos videos (ha centenas, milhares!) mostrando algumas variacoes, conforme a visao de diferentes — e reconhecidas — autoridades na coisa:
https://www.youtube.com/watch?v=R-FSrgCk9yU — um video relativamente longo (24 minutos), com Mr. Shannon Rogers, o "Marceneiro da Renascenca", levando um longo papo enrolado para apresentar afiacao inteiramente manual. Sim, em ingles, claro. Todos os videos sao em ingles, o que que eu posso fazer? Alias, e' por isso que eu digo que o melhor curso de marcenaria que eu posso recomendar e' um curso de ingl... Mas divago!
https://www.youtube.com/watch?v=WiPAS-iQFvk — Mr. David Charlesworth e um modo refinado e particularissimo de polir lamina de plainas, incluindo tecnologia recentissima. (Com agradecimentos ao Cosme, pela dica.)
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E entao, para encerrar o papo comprido, e fosco, com puro exibicionismo, o resultado da minha afiacao da lamina da plaina:
Bizel concavo e microbizel polido ate 15000G. Esta cortando mais que navalha!
So para mostrar que polimento espelhado nao e' figura de retorica, hehe
E era isso, pedindo desculpas aos leitores pela estopada.
Afiacao, como qualquer atividade artesanal, e' algo personalissimo. Cada um tem seu jeito proprio, originario de diversas informacoes e experimentacoes, sedimentado pelo tempo e a pratica ao ponto de tornar-se automatico. Usualmente, mesmo no comeco seguindo-se a mesma cartilha, ao final sera raro, rarissimo haver sequer semelhanca entre o jeito de um e o jeito de outro. E, como em qualquer atividade humana personalissima, uma vez um praticante tendo consolidado o seu jeito, para ele aquele passa a ser O jeito, todos os outros repletos de defeitos e imperfeicoes...
Ate por isso, raramente se vera qualquer um com nome a zelar se propondo a discutir tecnicas de afiacao. Todo mundo sabe havera muito mais vaias do que aplausos, seja qual for a proposta ou recomendacao. Exemplarmente, Mr. Christopher Schwarz, editor, autor, instigador de tendencias, renomado guru na marcenaria artesanal entre outros atributos, afirmou em seu blog na Popular Woodworking Magazine:
"Eu faco questao de evitar postagens sobre afiacao. E' o que ha de simples, mas se faz confuso por muito bateboca e muitos produtos comerciais.
Honestamente, eu nao dou a minima como voce afia suas ferramentas. Se voce consegue obter uma interseccao com raio zero e entao da polimento a ambas as superficies, entao voce faz parte do clube. (...)"
O que nao se discute e' que uma boa afiacao deve obter essa interseccao de duas superficies com raio zero (um angulo, sem qualquer arredondamento), idealmente com o menor desgaste possivel de material e no menor tempo possivel, e mantendo a geometria do gume.
Pois por esses dias, dando uma lida em um topico sobre guias de afiacao em um forum dA Matriz, o WoodTalk Forum, deparei com uma postagem sobre um metodo de afiacao que promete ser mais rapido e produzir menos desgaste de material. Fui pesquisar, e achei o tema suficientemente embasado para experimenta-lo, e tao instigante que — mesmo correndo o risco de vaias — resolvi apresenta-lo aqui pensando talvez possa interessar a algum de meus sete fieis leitores...
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Era uma vez um cara chamado Steve Elliot, um marceneiro profissional dA Matriz que trabalha com maquinas industriais em sua marcenaria, e cujo hobby e' futricar com plainas manuais, particularmente as infill inglesas. Essas futricacoes eventualmente o levaram, primeiro, a constatar que o que ja havia de publicado entao sobre desgaste do fio de laminas com o uso, o arredondamento do fio, era praticamente tudo relacionado a ferramentas motorizadas. Dai entao, `a decisao de estudar como seria o padrao do muito menos intenso desgaste que ocorre na plainagem manual.
Encurtando a novela, ele utilizou uma plaina manual em pranchas de cerejeira americana para cortes entre 0,03 a 0,05mm de profundidade. A cada 50 pes lineares plainados, o gume da lamina era levado a um microscopio com aumento de 540X e fotografado. A lamina era entao retornada `a plaina, ajustada para corte na profundidade padrao, mais 50 pes lineares plainados e o processo se repetiu ate completar 800 pes lineares. E entao tudo de novo, com outra lamina, e outra lamina, e... Algumas das fotos sao mostradas ahi `a direita.
(Pensando talvez melhore a clareza, alguns detalhes: - Um pe linear, ou 30,48 centimetros, pode ser considerado o comprimento de uma passada media com uma plaina para todos os efeitos praticos. - A cerejeira americana e' madeira nao abrasiva (sem silica), com uma dureza um pouquinho maior do que a do pinho (Araucaria) e um pouquinho menor do que a da macaranduba. - As imagens mostradas sao de uma plaina com lamina com o bizel para baixo. - Foram empregados diversos tipos de laminas, com acos de alto carbono, A2, ligas especiais, etc..)
Valores medios das imagens obtidas foram entao integrados em um grafico:
Na pratica, utilizando uma plaina de acabamento (smooth plane) o progressivo arredondamento do gume se tornou significativo, prejudicando a qualidade da plainagem, a partir de 250 pes lineares, ou 250 passadas. Ou seja, a cada 250 passadas — em uma madeira, para nos, de dureza media — uma plaina de acabamento deve ter a lamina reafiada para evitar-se surjam as imperfeicoes que um fio cego propicia.
Na hora de afiar, no entanto, esse grafico do desgaste da lamina apontou um aspecto intrigante.
Clique nas imagens para amplia-las
Se nos propusermos a refazer o gume e a geometria da lamina empregando as tecnicas usuais, ou seja, desgastando apenas o bizel, significaria no grafico desgastarmos o bizel ate alcancarmos a linha 1, onde se ira comecar a perceber o revirar da rebarba (wire edge ou wire line).
Se no entanto — e esse e' o aspecto intrigante — nos dispusermos a fazer a afiacao iniciando por desgastar a parte plana da lamina ate provocar rebarba, ou seja, atingindo a linha 2 superior, e so entao passarmos a desgastar o bizel ate notarmos o surgimento de rebarba, ou seja, atingindo a linha 2 inferior, fica evidente teremos alcancado nosso objetivo — refazer a interseccao com raio zero e mantendo a geometria do gume — com muito menor perda de material e por conseguinte com menor esforco e em menor tempo.
Aplicando os mesmos raciocinios ao caso de 250, ao inves de 800 passadas, ou seja, reafiando a lamina tao logo detetado perda no fio ao inves de esperar por total embotamento, fica ainda mais evidente, comparando na figura `a direita a area que restaria desgastando-se apenas o bizel (linha a) com a area que restaria desgastando primeiro a face plana e entao o bizel (linhas b), que a perda de material e portanto o esforco e o tempo seriam muitissimo menores.
Uma demonstracao pratica da aplicacao dessa abordagem de afiacao, e de sua rapidez e facilidade, esta demonstrada nesse video abaixo, como sempre e infelizmente em ingles:
Minhas laminas de plaina estao todas bem afiadas mas, por tudo o que foi dito, esta nos planos utilizar a mais facil de afiar para testar esse metodo.
E, claro, tao logo tenha feito os testes venho relatar. Uma bathora dessas, aqui nesse batcanal.
Uns passeios pelos arredores do portinho incluiram — alem de algumas mangas d'agua inesperadas e inconvenientes, que o velho Pedro nao admite ser esquecido — umas visitas a algumas madeireiras e, como resultado, acabei trazendo para casa oito taboas, todas com ~4cm de espessura, que considerei bem interessantes...
Na imagem ao lado, as setas vermelhas apontam para pranchas de muracatiara, incluindo brancal e as marcas da casca, em um lado de uma delas e em ambos os lados da outra.
As setas verdes apontam para duas pranchas de imbuia, a mais de baixo mostrando uma rachadura, rachadura esta que se estendia por quase a metade de seu comprimento.
Na imagem acima, a bola verde indica uma prancha de jequitiba, uma essencia que eu so conhecia de nome e por algumas imagens. Abaixo dela, uma outra prancha, essa de goiabao. A bola vermelha esta sobre outra especie de madeira que eu desconhecia totalmente, um tal de marfim-rana, semelhante ao pau-marfim mas ainda mais claro, um pouco mais leve, menos denso.
Nesta imagem, a bola azul cobre a prancha de jequitiba, a laranja o marfim-rana, a seta verde aponta o goiabao e as duas bolas vermelhas estao sobre uma preciosa raridade: uma prancha de imbuia sem um defeitinho sequer e medindo assombrosos 112 por 69cm!! (Me contou o dono da madeireira ela tinha sido cortada nos antanhos para ser uma mesa — o porque dos cantos boleados — que nunca chegou a ser construida.
O passeio acabou se transfigurando em uma caca ao tesouro, e o butim para o meu gosto resultou riquissimo, hehe.
O unico senao era aquela grande rachadura na prancha de imbuia apontada na primeira foto. Senao que esta sendo tratado, com cola e grampos:
Obviamente nao adquiri essas madeiras contemplando alguma coisa especifica em que emprega-las, apenas nao quis perder a oportunidade que surgiu e, muito provavelmente, nunca acontecera outra vez.
A ideia basica por ora e' deixa-las entesouradas ate que o acaso inspire algo.
So, nao sei exatamente por que, mas fica essa sensacao que nao vai demorar muito, hehehe...