quinta-feira, 15 de março de 2012

Tres madeiras, uma mesa

Meados do seculo passado, na minha infancia tinha um cheiro que era caracteristico de marcenaria...

As decadas se passaram e hoje marcenaria nenhuma tem mais aquele cheiro. Uma historia que nao vem ao caso, mas acabei descobrindo que o meu "cheiro de marcenaria" era produzido essencialmente pelo lidar em duas essencias: imbuia e louro gaucho, na minha infancia ambas fartamente encontradas e muitissimo utilizadas, so perdendo para o pinho, considerado madeira de terceira. As coisas sendo como sao, hoje araucaria so se consegue de arvores jovens vindas de raleio de florestas cultivadas;  imbuia e louro gaucho sao especies protegidas, com comercio limitadissimo, quase impossivel de encontrar, e marcenarias em geral cheiram a — argh! — cola de contato.

De qualquer modo ha alguns meses, peregrinando os interiores acabei encontrando umas tabuas de imbuia e de louro gaucho. Comprei e deixei protegidas do elemento no meu 'deposito', esperando brotasse inspiracao para emprega-las em alguma coisa. Entao esses dias, basicamente para experimentar a tecnica, me veio a vontade de construir um movel utilizando pernas cabriolet... Resumindo, resolvi fazer uma mesinha para a sala, daquelas onde se bota tudo em cima — livros, revistas, chicaras, chaves, eventualmente os pes — com pernas cabriolet e usando imbuia e louro gaucho.

Um problema surgiu porque quando fui ver, para fazer as pernas eu precisaria uns paus quadrados de 8x8cm. Obviamente, de imbuia ou louro, nem pensar, e tentar fazer os paus por colagem ia ficar feio quando cortadas as pernas. Acabei decidindo fazer as pernas em itauba, que se encontra, e quando em tempo escurece fica com uma coloracao bem aproximada `a da imbuia.

De determinado, apenas as dimensoes gerais; 80x55 no tampo, uns 40-45cm de altura e pernas cabriolet. Nao tinha e nao tenho nenhum projeto especifico, a ideia e' a coisa ir se desenvolvendo enquanto se desenvolve, hehe. Comecei dimensionando aproximadamente e aparelhando as madeiras, que podem ser vistas ahi na fota `a esquerda acompanhadas, dentro do saco, pelo sempre impressionante volume de poeira, maravalha e serragem que essas operacoes produzem.

E, claro, ja entao — nessas, eu tinha me esquecido! — pude constatar com um prazer daqueles que umedece os olhos que minha 'oficina' tinha sim "cheiro de marcenaria"!

Bom, hora de cortar as pernas. Se algum de meus seis fieis leitores ignora como se faz para cortar pernas cabriolet, eu recomendaria — alem de pesquisar no tio Google por videos com a frase cutting cabriole legs — talvez dar uma espiada nesse link, e clicar Season 14 e ahi Episode 1412. (E' a primeira de duas partes de um video onde Mr. Scott Phillips constroi um movel, classico nA Matriz, chamado High Boy. A vantagem e' que, depois de um papo, a primeira coisa pratica que ele mostra e' a construcao de pernas cabriolet.) E nao, nao e' que eu esteja com preguica de tentar explicar como e' que se faz, mas e' que so com palavras e fotos ia ficar muito, muito complicado para entender — e eu nao tenho filmadora.

Fiz um padrao com auxilio de um programa de desenho no computador, imprimi e colei em um compensado fino e na serra de fita cortei o molde. Usei o molde para tracar nos paus de itauba os contornos e entao, nos conformes da tecnica, cortei as pernas na serra de fita, com o resultado que voces veem ahi na foto. Ah, sim, ia-me esquecendo: ANTES de cortar as pernas, aproveitando que os paus ainda estavam com lados perfeitamente retos, abri as furas, na tupia de mesa.


Ahi, hora de partir para a modelagem/acabamento primario das pernas, com grosas, limas e lixas:


Prontas as pernas, hora de cortar as espigas nas traves. Acontece que essa coisa de abrir furas na tupia de mesa utilizando uma fresa helicoidal... eu nunca tinha feito. E como tudo que se faz pela primeira vez, inevitavelmente houve varios errinhos, alguns erros e dois erroes. O preco disso foi pago em ter de cortar as espigas tirando medida no paquimetro a cada corte, ja que na verdade as furas nao ficaram nada regulares, hehe. Mas, enfim, sao as dores do aprendizado...

Tudo pronto para colar


Azar!

Foi praticamente um dia inteiro para cortar as oito espigas, mas pelo menos tudo ficou bem dimensionado, a montagem seca ficou bem boa e, como costumava dizer o Norm Abram, afinal era hora de alguma montagem.

Utilizando, claro, um pincel, apliquei cola nas furas e nas espigas, montei e foi tudo para a prensagem.

Colando






Voltando para a 'oficina' (e sendo saudado por aquele maravilhoso "cheiro de marcenaria"), a colagem estava pronta e era hora de afrouxar os grampos e botar a base da mesa no chao para ter uma ideia de como a coisa estava indo...


Nada mau, hein? Nada mau...

Agora, dar um tempo para pensar no que fazer e no que nao fazer para continuar a construcao.

P.S. - No entanto, obviamente bateu uma curiosidade e coloquei as tabuas que serao o tampo sobre a base, so para ter uma visao da coisa...

Um comentário:

  1. Cara parabens vocÊ é um artista da madeira!!!

    Excelente o seu blog!!

    Vou acompanha-lo e ler todos os posts desde o inicio!!

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