quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Torno e bedan

Depois de uma longa e eventualmente irritante espera, finalmente as circunstancias foram propicias e eu consegui adquirir um torno manual para madeira. Embora longe de ser uma maquina sequer de segunda linha em relacao ao que se oferta no Primeiro Mundo, tem suficientes recursos para atender minhas demandas por um bom tempo, imagino.

Cheguei a ter um certo treinamento, por maos `a obra em tornearia la pelo final da adolescencia em meados do seculo passado, mas minha pratica ultimamente estava limitada apenas ao meu microtorno; e embora os formoes, goivas, os ferros de corte em geral sejam ate bem semelhantes, a tecnica de seu emprego e' bem diferente quando o tamanho muda de micro para macro.

Bedan
Enquanto aguardava a oportunidade de comprar o torno, um pouco para mitigar a sede, outro pouco pelo prazer de me informar, aproveitei para adicionar ao trivial variado de minhas surfadas pela Teia temas de tornearia. Assim, um belo dia me deparei com uma ferramenta cujo uso desconhecia, mas que logo despertou meu interesse: o tal de bedan. Trata-se de um formao de perfil quadrado, ou quase, com um bizel cortado a 47,5°. De uso costumeiro na Franca, o maior divulgador e propagandista de seu emprego e' um marceneiro frances de boa fama, chamado Jean Francois Escoulen (seu site e' acessivel em http://www.escoulen.com). Houve outros, claro, antes e depois, mas em especial esse video de M. Escoulen ahi abaixo — com sua mistura inusitada; um torneiro falando ingles com sotaque frances e sendo traduzido para o japones — foi fulcral em minha decisao: era uma tecnica que eu queria experimentar, sem qualquer duvida. Alem da preciosidade da execucao e da beleza do resultado demonstrado no video, calou fundo a afirmacao do mestre quanto a, em sua experiencia, qualquer apreciador de tornearia que dedicasse 10 minutos por dia `a pratica com o bedan em dois meses estaria total e irreversivelmente convertido ao seu uso sobre qualquer outra tecnica. Tao impressionado e tao curioso fiquei que ja meses atras acabei adquirindo um bedan...



Quando o meu torno enfim chegou, antes de poder opera-lo foi necessario mandar construir no torneiro mecanico algumas pecinhas que 'vieram faltando' e adaptar outras para, na minha opinao, melhorar a ergonomia. Ja pensando em usar o bedan lembrei desse e outros videos, e de algumas postagens onde tinha lido que, especialmente em maos sem treino, como todo formao chato o bedan pode facilmente ocasionar trancos e por isso e' recomendavel que ao inves de pontas com agarre e' mais seguro, para o operador e para a peca, utilizar-se ponta lisa. Assim, aproveitei a ida ao torneiro mecanico e encomendei uma ponta lisa. Longa, tipo 'lapis', para afastar a peca do eixo, aumentando a seguranca.


(Na foto acima pode-se ver alguns acessorios do torno: da esquerda para a direita, as duas chaves para aperto do eixo, a placa de face e dois bits do copiador, um com ponta triangular, o outro com ponta quadrada. Sobre a placa, a ponta viva original, com garras, a contraponta rolamentada e a ponta que mandei construir, lisa, tipo 'lapis'.)

Tudo ajeitado, revisado, os acessorios disponiveis, era hora de testar a encrenca...

Medidas de seguranca tomadas, EPIs, roupas, tudo e tal, prendi um galho de amoreira, seco de anos, entre pontas e comecei a girar. Dois serios problemas de ergonomia logo se manifestaram. Primeiro, a fixacao do apoio da ferramenta e da base da contraponta e' feita com porcas:

Isso significa que a cada ajuste, tanto para reposicionar o descanso, como para aproximar ou afastar a base, e' necessario utilizar uma chave.


Marcas e serrilhado produzido no descanso de
ferramenta pelos bordos dos formoes

Alem disso, o descanso da ferramenta propriamente dito e' construido em aluminio. Ora, os formoes sao de aco rapido, muito mais duros. Ao apertar contra o encosto os formoes, especialmente os cantos vivos do bedan, o aluminio evidentemente cede, e vai-se formando um serrilhado na borda do descanso que acaba atrapalhando o livre deslocamento da ferramenta durante o corte, com repercussao no acabamento da peca.

Mas, enfim, como eu disse nao e' uma maquina de primeira linha, longe disso. Solucoes estao sendo engendradas, por certo, mas enquanto isso, e' hora de treinar, treinar. No minimo 10 minutos por dia, como recomenda M. Escoulen...

Ontem e hoje, o bedan muitissimo bem afiado como indispensavel, treinei. Os resultados... Ontem, do galho de amoreira, uma forma livre com um anel prisioneiro, para ver se eu ainda lembrava como se faz.





Hoje de manha, resolvi seguir a recomendacao do mestre frances e, de um toquinho de cedrinho, tentei girar um ovo. Longe da perfeicao, como esperado. Tive problemas com a terminacao nas pontas e, tambem como esperado, com o acabamento.








Bueno, de qualquer jeito ainda faltam 59 dias para confirmar, ou negar, a tese proferida no video... O que ja deu para perceber nessas duas primeiras tentativas e' que quando a coisa da certo, da muito certo.

Estou curioso, muito curioso, de ver o que vou poder conseguir quando sentir firmeza para usar madeiras mais afeitas a giros.



4 comentários:

  1. Também estou muito curioso, pois o primeiro trabalho, com anel prisioneiro, já dá uma ideia do que virá pela frente. Parabéns pela aquisição e pelo trabalho. Abraços!

    ResponderExcluir
  2. Esqueci de assinar: Lauro!

    ResponderExcluir
  3. Preciso substituir o pé de uma poltrona que é torneado, mais fino embaixo. Você faz este tipo de serviço? Parece mais simples do que o ovo que você conseguiu fazer. Meu nome é Isis

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Eu nao trabalho "pra fora", Isis. E' puro hobby.

      Excluir