segunda-feira, 23 de maio de 2011

Tupia na mesa — O Tampo


Quem adquire uma tupia manual tende a logo, logo ficar surpreso e entao deliciado com a sua inacreditavel versatilidade, suas mil e uma utilidades. E a seguir tende a descobrir que mais de 90% das operacoes que podem ser feitas com a tupia manual sao feitas melhor e com muito mais facilidade utilizando-se a tupia montada invertida em uma mesa.

Ou seja, cedo ou tarde, geralmente muito cedo, quem tem tupia vai querer monta-la em bancada.

Nos paises civilizados do Primeiro Mundo, se talvez nao a mais eficiente, certamente a opcao mais simples, mais facil e usualmente a mais barata seria comprar uma bancada pronta. Ha duzias de marcas e/ou modelos... Aqui em pindorama, tanto quanto eu saiba so ha dois modelos disponiveis comercialmente (http://goo.gl/bQYt1 e http://goo.gl/CQGXb) mas, sao dificeis de se achar `a venda, na minha sempre desconsideravel opiniao deixam bastante a desejar em termos de qualidade e desempenho e, certamente, serao tudo menos baratos. De onde se deduz que, entre nos, quem deseja uma bancada onde colocar sua tupia tem como melhor, e frequentemente o unico, caminho construir uma.

Nao sera dificil encontrar projetos de bancadas para tupia na rede. Pelo contrario ha centenas, se nao milhares de diferentes versoes disponiveis em incontaveis sites, em inumeros idiomas. Optar entre tamanha variedade e' que e' o problema: afinal, o que e' importante, o que e' superfluo?

Como diria o velho Jack, alem de muita calma, nessa hora o melhor e' irmos por partes. E claro, como em toda a mesa, a primeira parte a se considerar e' o tampo.

    A primeira e a mais importante consideracao quanto ao tampo de uma bancada de tupia e' que devera ser suficientemente rigido e o mais absolutamente plano possivel. Sem ondulacoes, empenamentos, torcoes. Plano. Embora haja no exterior alguns modelos comerciais de mesa para tupia manual com tampos metalicos semelhantes aos das tupias estacionarias industriais — predominantemente de ferro fundido ou aluminio injetado — na nossa realidade creio eu ser o MDF o melhor material `a nossa disposicao para fazermos o tampo porque, em funcao da propria tecnica de sua fabricacao, o MDF e' certamente o mais plano dos paineis de amadeirados ou de madeira.


    A seguir temos de considerar as dimensoes do tampo. Em tese, quanto maior, melhor, pois quanto maior o tampo, maior o tamanho da madeira a ser trabalhada que podera ser suportada com estabilidade, sem problemas. Em teoria, a unica limitacao nas dimensoes da mesa sera a distancia da borda ate a fresa, pois obviamente esta devera ficar necessariamente ao alcance da mao. Ha de se ponderar porem, nao raro o espaco disponivel na oficina sera limitado, ou mesmo inexistente para uma bancada de largas dimensoes e, sem duvidas, mesmo uma bancada pequena sera melhor que bancada nenhuma, razao por que sao comuns os projetos, inclusive industriais, de mesas construidas para serem utilizadas em cima de outra mesa.


    No entanto, com uma densidade ao redor de 800 kg/m³, o MDF e' pesado. E e' pouco estruturado, nao tem veios, 'embarriga' facil. Evidente que em uma pequena mesa isso nao sera problema, mas se for contemplado um tampo de maiores dimensoes esse problema necessariamente devera ser prevenido. Mais facil do que estruturar o suporte do tampo para evitar o afundamento, uma abordagem mais simples e mais eficiente me parece simplesmente colar o MDF a um painel de compensado, ja que o compensado, se certamente nao tem a planura do MDF, em compensacao tem, peso a peso, a rigidez do aco e, alem disso, e' bem menos denso, mais leve do que o MDF.

    E ahi, independente de utilizar-se apenas MDF para bancadas menores ou um 'sanduiche' de MDF e compensado para maiores, e' altamente recomendavel que o tampo seja revestido nos dois lados, em cima e em baixo, com formica. Em cima para proteger o tampo de pancadas, derramamentos de cola, solventes, etc., e oferecer uma superficie que permita um melhor deslizamento, e em baixo para evitar o empenamento que usualmente ocorre com laminacao unilateral.

    Desnecessario talvez, mas vale lembrar que essas consideracoes aplicam-se especificamente `a construcao de um tampo pressupondo que nao haja material disponivel que possa ser reaproveitado para essa finalidade. Sem duvidas, desde que bem plano ou aplainado e suficientemente rigido, qualquer material pode ser empregado na confeccao de um tampo.

    segunda-feira, 16 de maio de 2011

    Implicancia

    Quando eu comento essas coisas, em geral as pessoas ficam me olhando meio desconfiadas, provavelmente imaginando quao frouxos andam meus parafusos. Mas que `as vezes as coisas tiram de implicar com a gente... ah, tiram. Tiram mesmo.

    Primeiro, foi a serra de fita. Uma semana, pouco mais, afastado da 'oficina' e as maquinas parece que ficaram irritadas com o abandono. A guia da mesa trincou na troca da lamina da serra, tive que cortar uma nova. Tudo bem. Acontece. Divido em quatro o bloco de cocobolo ha tempos nos meus guardados, querendo ver que cara mesmo tem essa madeira que eu nunca tinha usado, levo os sarrafinhos para meu microtorno para cortar umas colunas esguias, pensando em usa-las depois possivelmente como decoracao para uma caixa em madeira clara, constrastante. Toca o telefone.

    Ahi, era a vez do torninho. Depois de arredondar o primeiro sarrafo, um barulho estranho, de coisa raspando la no miolo da maquina. Para tudo, sacode, sopra para tirar uma possivel serragem, some o ruido. Termino a primeira coluninha, inicio o arredondamento do segundo pau e, pronto: volta o ruido. Nao sumiu. Toca o telefone. Dane-se. Nao vou atender. Vou e' desmontar essa porcaria!

    Manchinha superficial de ferrugem no eixo (normal: afinal no portinho a umidade relativa NUNCA baixa de 80%), um parafuso solto na carcaca do motor, montes de serragem colada nos rolamentos. Bombril, parafuso apertado, tudo limpo e relubrificado, remonto e ligo, o ruido foi-se. Volto a tornear, o telefone toca. Azar. Mais um para a secretaria eletronica. O telefone ainda tocando e... o ruido volta.
    Mas que droga!!

    Desmonta tudo de novo. Com a barriga da maquina aberta, o triparedo todo `a mostra, liga so o motor. Silencioso, silencioso. Engata a correia no eixo, liga de novo. Isso: rolamento chiando. Banho de WD-40, gira, gira, gira, seca, seca, seca, graxa liquida em spray. Liga de novo e aleluia! Foi-se o ruido.

    Estou nos finalmentes da segunda coluna quando ele volta... Paro e considero se devo fazer ajustes finos, utilizando uma chave portuguesa...
    Como? Que chave portuguesa? Ora... Martelo e talhadeira!!
    Toca o telefone.

    Nao, nao. Melhor deixar para amanha.
    Quem sabe, param de implicar?

    Fui tomar uma cervejinha e, como calmante, fotografar as duas coluninhas que consegui tornear, mesmo contra a vontade das maquinas:



    Amanha... Sera outro dia — como ja cantou alguem.

    terça-feira, 10 de maio de 2011

    Esquadro

    Sempre bom lembrar: toda regra tem excecao, inclusive esta.
    Ou seja, o que se segue nao pretende, nem de perto, esgotar o assunto...

    Se nao a mais, uma das mais importantes atividades em marcenaria e' aparelhar a madeira o mais perfeitamente possivel com os seis lados quadrados — cada face paralela `a oposta e a exatos 90° das faces adjacentes, um paralelepipedo perfeito — e na exata medida desejada. O que vai demonstrado no video abaixo e' talvez o metodo mais simples e facil de faze-lo, em sete passos:

    1. Cortar a tabua, de topo, em um comprimento aproximado (um pouco mais longo) do desejado, com serra de esquadria ou treno na serra de mesa;
    2. Aplainar um dos lados largos, na plaina desempenadeira;
    3. Aplainar o outro lado largo, no desengrosso, ate a espessura desejada;
    4. Aplainar um dos lados finos, em esquadro com o largo, na plaina desempenadeira;
    5. Ripar o outro lado fino na serra de mesa, na largura desejada;
    6. Esquadrejar um topo, na serra de esquadria ou treno;
    7. Cortar, do mesmo modo, o outro topo no comprimento desejado.


     Ha diversas outras abordagens possiveis, alterando a ordem ou mesmo as ferramentas empregadas, e por certo nao ha consenso qual maneira a melhor; vai um pouco de preferencia pessoal, um pouco de disponibilidade de equipamentos, um pouco de adaptacao `a realidade especifica de cada caso. Mas, da maneira que for, o resultado desejado sera sempre o mesmo...














    Nao importando qual metodo e/ou ferramentas empregados, para que o resultado final possa apresentar a precisao desejavel, e' absolutamente fundamental que todas as ferramentas e maquinas empregadas no processo estejam perfeitamente reguladas. E dessas regulagens e' absolutamente critico as guias das maquinas/ferramentas estejam firme e exatamente postadas a exatos noventa graus com as mesas.


    Dai que antes de inciar-se o processo de preparo da madeira, deve-se sempre aferir rigorosamente o exato posicionamento das guias, empregando-se um bom esquadro, aferido.





    Para aferir um esquadro — algo indispensavel, tanto considerando-se a frequencia assustadora com que esses instrumentos ja vem da loja fora de registro, como o fato que acidentes de percurso como quedas, marteladas, etc., podem alterar sua precisao — o metodo mais facil que eu conheco e':


    - utilizando um bordo bem reto, colocar o cabo do esquadro contra esse bordo e tracar uma linha com um lapis ao longo da lamina (A, na figura abaixo);


    - feito isso, girar o esquadro de modo ao cabo ficar na posicao oposta `a que estava (B) e, posicionando a lamina no inicio da linha previamente tracada (C), voltar a tracar uma outra linha ao longo da lamina. Se ambas as linhas concidirem perfeitamente, o esquadro estara aferido. Se nao coinciderem, estiverem formando um angulo, o esquadro esta fora de registro.

    sábado, 7 de maio de 2011

    Tudo se transforma

    (Clique nas imagens para, querendo, ve-las ampliadas.)

    Em mais uma etapa da operacao de metamorfosear o que um dia foi a churrasqueira em uma 'oficina domestica', a churrasqueira propriamente esta sendo transformada em camara para pintura a pistola...

    A primeira etapa foi, evidentemente, aplicar multiplas vezes o soprador para remover o maximo possivel do po e fuligem acumulados nas paredes. Na verdade, inicialmente considerei uma lavagem com agua e sabao mas na balanca do custo/beneficio — talvez, pode ser, com um dos pratos "dopados" pela preguica, hehe — acabei concluindo nao valeria a pena.


    A seguir da sopracao, cortei uma chapa de compensado de 20mm para cobrir o que foi a fornalha (espaco atualmente utilizado como, mm, arquivo-morto, digamos; um deposito para esquecimentos) e servir como tampo, movel, para a bancada de pintura.

    Nesse tampo adaptei uma mesa rotativa igualmente em compensado (10mm), utilizando um carretel giratorio.













    Tanto o tampo como a mesa rotativa receberam duas generosas camadas de cera em todas as faces, como protecao evidentemente, e tambem para facilitar a limpeza quando for o caso.

    A seguir, a ideia e' efetuar a pintura das paredes, mas ainda nao me decidi exatamente qual tinta utilizar. Estou pendendo para tinta acrilica, mas ainda nao consegui afastar a hipotese de utilizar impermeabilizantes de alvenaria, ou um verniz, ou mesmo tinta epoxi. Alias, se alguem tiver alguma sugestao a enviar, o comentario certamente sera apreciado.

    Entao, apos feita a pintura, a instalacao eletrica atualmente existente para a lampada na chamine sera aproveitada para instalacao de um exaustor (na verdade, um ventilador velho...).

    E entao — o' vida ingrata! — estarei na angustiante, quase intoleravel circunstancia de TER de fazer algum movelzinho que possa ser pintado a pistola para inaugurar as instalacoes...

    quarta-feira, 4 de maio de 2011

    Faccoes

    (Como sempre, em querendo clique nas imagens para ve-las em tamanho maior.)

    Como se pode ver registrado em consideravel volume de literatura publicada e em inumeros sites na Internet, existem pelo menos dois, chamemos assim, grandes cismas na marcenaria; um desde a  Segunda Revolucao Industrial, o outro desde a introducao dos paineis amadeirados.

    A Revolucao Industrial, na transicao do sec. XVIII para o sec. XIX, iniciou-se na Gra-Bretanha pela progressiva mecanizacao da industria textil, propulsionada pela utilizacao de maquinas a vapor. O monumental aumento na produtividade resultante espalhou o processo mundo afora, afetando praticamente todas as atividades produtivas da humanidade inclusive, claro, a marcenaria. Ja nas primeiras decadas do sec. XIX haviam-se estabelecido no mundo industrializado diversas marcenarias mecanizadas — algumas das quais surprendentemente sobrevivem ainda quase exatamente como eram entao, como exemplificado no video do link abaixo (infelizmente, e como quase sempre, em ingles):

    http://www.pbs.org/woodwrightsshop/video/2600/2612.html

    Entao, pela metade do sec. XIX, com o desenvolvimento do motor de combustao interna e da geracao de energia eletrica desencadeia-se a Segunda Revolucao Industrial que ocasionou — entre outras tantas coisas menos interessantes como por exemplo a industria automobilistica, a economia capitalista moderna, e que tais — o surgimento de ferramentas eletricas para a marcenaria.

    Do ponto de vista da industria nunca houve quaisquer duvidas em abracar alacremente o uso de maquinas, eletricas ou a vapor. Pelo contrario, quando determinadas tecnicas, mesmo consagradissimas, eram inadequadas ou pouco propicias `a automatizacao, eram trocadas sem hesitar por outras que fossem. E se necessario inventar novas tecnicas mais favoraveis, ou mesmo exclusivas para empregar-se com maquinas... pois que inventadas fossem. Exemplo tipico, a emenda Knapp ou emenda em pino e meia-lua:




    Esta emenda foi inventada em 1867 porque entao nao havia nenhuma maquina capaz de eficientemente produzir a classica sambladura de malhete em cauda-de-andorinha para confeccao de gavetas.


    Obviamente projetada para ser facilmente executada por maquinas com ferramentas rotativas, foi muito popular em moveis produzidos industrialmente nA Matriz de 1870 ate 1900: enquanto um artifice altamente especializado era capaz de aprontar no maximo vinte gavetas por dia utilizando a tecnica classica, uma maquina utilizando a emenda Knapp podia produzir bem mais de duzentas. Na virada para o sec. XX no entanto, nao apenas houve o desenvolvimento de maquinas capazes de efetivamente efetuar a classica asa-de-andorinha, como o surgimento do movimento cultural chamado "Colonial Revival" que celebrava as obras construidas no estilo de quando os Estados Unidos foram fundados, o que acabou levando a emenda Knapp para o quase total esquecimento onde hoje jaz.






    Embora evidentemente o predominio da construcao industrial em marcenaria nunca mais arrefecesse, um numero significativo de marceneiros autonomos, diletantes e hobistas sempre permaneceu. Como, mesmo comercialmente, sempre houve quem preferisse moveis feitos por marceneiros a moveis produzidos industrialmente. E, la pelas ultimas decadas do sec. XX, iniciou-se um ideario e logo um movimento tradicionalista entre os marceneiros.

    Com fulcro na ideia central de que o apogeu, o cume, o maximo em marcenaria havia sido atingido com as tecnicas em uso ate 1875, o movimento amealhou consideravel numero de adeptos. Esse cisma persiste; de fato essa faccao tradicionalista cresceu e continua crescendo tanto que, nos dias de hoje, um numero consideravel de praticantes da marcenaria pode ser incluindo no rol de seus crentes, praticantes ou simpatizantes — mesmo que muitos ignorem totalmente a historia e as ideias por tras. Essencialmente, sao artifices que renegam o uso de maquinario eletrico.

    Mmm... Bem... Nao exatamente.



    Ainda que haja sim uns poucos puristas que ortodoxamente recusam-se totalmente a empregar quaisquer tecnicas ou equipamentos que nao existissem ate 1875, a maioria em verdade nao renega totalmente usar maquinas eletricas. Usam-nas, quando indispensavel ou gritantemente conveniente, mas preferem sempre que possivel empregar ferramentas manuais no seu labor.


    Logicamente, parece dificil entender por que alguem va preferir `as vantagens e facilidades das ferramentas eletricas utilizar tecnicas e ferramentas que implicam em mais trabalho, mais tempo, mais custo e/ou menor precisao. Esmiucando-se bem, usualmente nao e' possivel apontar para a preferencia um motivo nitido, especifico; quase sempre se resvala para gosto, costume, afetos...



    E e' bem por isso que, como em todo cisma, e' tao dificil, quando nao impossivel, se argumentar. Nao e' coisa para tratar com logica. Como diz um amigo meu, essas coisas de gostos, cores, amores... e' como mulher. Nao se discute. Se abraca.

    segunda-feira, 2 de maio de 2011

    Sobre serra e coice - breves comentarios

    Todo mundo sabe que a serra de mesa (tambem chamada serra circular de bancada) e' uma maquina perigosa. Em pindorama, ou nao mantemos estatisticas, ou elas nao sao confiaveis. NA Matriz, pelo contrario, eles tem estatisticas para tudo. Por la, onde ha ao redor de 650.000 serras de mesa so em uso nao profissional, elas sao as maiores responsaveis por acidentes com marceneiros que os enviem `as ER (Sala de Emergencia, Emergency Room). Dos acidentes provocados por serra circular os mais notorios e chamativos sao certamente os cortes causados pela lamina, desde laceracoes superficiais ate amputacoes. Mas os mais frequentes e os mais graves, no entanto, sao os produzidos por coice: desde pequenas contusoes ate grandes fraturas, cegueira e, mesmo, morte.

    Alem de cuidados basicos, como jamais usar roupas folgadas e/ou mangas compridas e/ou joias ou relogios de pulso, etc., quando operando maquinario (que podem ser presos pelas partes moveis da maquina e 'puxar' aquela parte do corpo do operador contra o polo ativo da maquina), para prevenir-se de acidentes com a lamina diretamente as medidas preventivas sao faceis de entender. A mais segura providencia e' NUNCA levar qualquer parte do corpo a uma distancia menor de 20 cm da lamina. Adicionalmente, a lamina deve sempre operar coberta por uma solida protecao, preferivelmente transparente.

    Para adequadamente prevenir-se do coice, e' preciso entender como ele ocorre.

    Em uma lamina de serra circular de 10 polegadas, a mais comumente utilizada em serras domesticas, um dente na periferia da lamina percorre aproximadamente 80 cm a cada giro. Ao redor de 4.000 rpm, isso significa um deslocamento de 3.200 metros por minuto, ou seja, 192 km/h! A acao de corte da serra ocorre quando os dentes da parte anterior da lamina cravam-se no topo da madeira em contato com a serra e, deslocando-se para baixo, 'espremem' a tabua contra a bancada e entao arrancam-lhe um fragmento. O coice ocorre quando, por qualquer motivo, a madeira entra em contato com a lateral ou, pior, o topo dos dentes da porcao posterior da serra. Ali, os dentes correm para cima e, se chegam a cravar-se na madeira, com a forca de tantos cavalos tenha o motor da maquina, inicialmente impulsionam-na para cima, para fora do tampo da mesa da serra, e entao para a frente da maquina, onde esta o operador, provavelmente a mais de 100 km/h!

    Um pequeno pedaco de madeira em alta velocidade atingindo o operador (ou quem mais estiver por perto) pode causar problemas mais ou menos serios, dependendo de onde pegar. No olho, ate um cavaquinho sera coisa seria, razao porque nunca se deve operar maquinario sem oculos de protecao. Agora, uma tabua com varios quilos voando a dezenas de quilometros por hora... e' um projetil mortal!

    Nos dois primeiros videos abaixo os autores produzem intencionalmente coices para demonstrar os potenciais efeitos. O terceiro contem uma exposicao (algo tediosa, para o meu gosto), infelizmente em ingles, sobre os mecanismos produtores do coice e, ao final, igualmente um coice exemplar.







    Os metodos de prevenir um coice dividem-se fundamentalmente em duas taticas: evitar que a madeira entre em contato com os dentes da porcao posterior da lamina e evitar que a madeira possa ser movida para cima e/ou para tras, contra o operador. As implementacoes variam de modelo para modelo, mas em essencia isso e' feito
    - colocando-se um espacador atras e o mais perto possivel da lamina para evitar que o rasgo do corte (kerf) possa por qualquer motivo 'fechar' contra a lamina,
    - utilizando-se garras que so permitam o deslocamento da tabua na direcao do corte e
    - utilizando-se mecanismos que 'prensem' a tabua contra a mesa (pentes, roletes, etc.).

    Evidentemente, embora nao se discutam as vantagens e a necessidade de utilizar-se esses mecanismos de protecao, o mais importante fator de seguranca e' e sempre sera o cuidado do operador em, alem de tomar as devidas precaucoes em operar o equipamento, evitar criar circunstancias que propiciem os acidentes.

    domingo, 1 de maio de 2011

    O preco das coisas

    Devo confessar fiquei algo surpreso ao descobrir que, ha anos, nA Matriz o programa de maior audiencia da rede publica de TV (PBS) e' Antique Roadshow. Essencialmente, toda semana em variadas cidades de todos os estados e' montado um espetaculo, transmitido pela PBS em rede nacional, onde as pessoas sao convidadas a levar suas antiguidades para te-las avaliadas pelos mais renomados experts daquela nacao. Alguns desses experts avaliadores inclusive, por seus meritos pessoais, claro, mas tambem pela grande penetracao do programa, terminaram tornando-se celebridades nacionais como, salientemente, os irmaos gemeos Leigh e Leslie Keno (googlar por "Keno brothers" pode dar uma ideia de quao populares sao...). As antiguidades levadas ao programa serao incluidas em uma de 25 categorias como Arte Asiatica, Relojoaria, Arte Folcrorica, Joalheria, Fotografia, etc. E, claro, Mobiliario — onde justamente brilham os Irmaos Keno.



    Aqui na nossa pindorama, onde cultivar tradicoes, historia — cultura, em geral — nunca foi exatamente um dos pilares mais salientes de nosso arcabouco social, imagino que um espetaculo televisivo desse naipe nao teria maiores probabilidades de conquistar audiencia notavel sob qualquer ponto de vista. Uma pena. Nao so por isso, evidente, mas tambem porque um apropriado substrato cultural influencia diretamente na formacao do preco das coisas; alem do valor intrinsico do objeto, materiais, estetica, mao de obra, etc., o devido enquadramento historico/cultural, incluindo raridade, da peca representa fator usualmente ate preponderante na formacao do preco. E assim, nao so por isso mas tambem por isso, e' pouco provavel que jamais consigamos alcancar um mercado tao rico (em todos os sentidos) ca por nossas paragens.

    Para talvez dar uma ideia, tanto do mercado, quanto do proprio programa televisivo, ahi abaixo links para quatro das avaliacoes. Os extremos: as mais altas e as mais baixas avaliacoes de moveis do arquivo de programas disponibilizado, para se tirar uma temperatura...

    http://www.pbs.org/wgbh/roadshow/archive/200303A01.html
    http://www.pbs.org/wgbh/roadshow/archive/200503A15.html
    http://www.pbs.org/wgbh/roadshow/archive/199707A13.html
    http://www.pbs.org/wgbh/roadshow/archive/200806A24.html