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quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

Uma caixa japonesa, com certeza

No desejo de manter ativos contato e lide com madeiras, e por ter utilidade para o objeto, ocorreu-me "chupar" ainda uma outra vez um projeto disponibilizado na rede por Mr. Christopher Schwarz. Tal projeto, ilustrado ahi na foto abaixo, foi apresentado no blog do autor no Popular Woodworking Magazine em 12 de maio de 2017 (https://www.popularwoodworking.com/woodworking-blogs/326395) acompanhado, entao como agora, de um link para baixar, sem custos, um arquivo .PDF incluindo detalhes, desenhos e uma lista de cortes e materiais (https://22293-presscdn-pagely.netdna-ssl.com/wp-content/uploads/SlidingLidBox.pdf).


A ideia, como habitual, nao foi tentar uma reproducao exata da reproducao e dos metodos de Mr. Schwarz, mas adaptar o projeto `as minhas contingencias e, claro, conveniencias. Assim, para comeco de conversa a madeira escolhida foi caixeta.

Inicialmente tinha pensado em imbuia, mas ahi lembrei que e' um projeto japones e, como inclusive aponta e insiste o autor, projetos japoneses parecem ridiculamente simples mas em verdade demandam cuidadosas minucias e precisao submilimetrica, ou a maionese desanda. Ate por isso os nossos amigos niponicos preferem sempre que possivel lidar com madeiras 'descomplicadas', com gra direita, leves, macias, faceis de trabalhar. Como por aqui nao se acha mais kiri (pawlonia), pensei a caixeta poderia ser um substituto  aceitavel — e ate agora pelo menos nao tenho queixas. E, como gosto de misturar essencias, achei um jeito de embutir um pedacinho de cedro rosa, hehehe.

Igualmente, as medidas nao foram respeitadas. Como prefiro sempre que possivel, nao tirei uma so medida, procurando apenas, a olho e por comparacoes entre pecas, um tamanho que me parecesse o correto para a finalidade desejada para o objeto.

Como igualmente e' minha preferencia, misturei ferramentas manuais e motorizadas sem qualquer intencao que nao o maximo conforto, o menor esforco. As pecas foram inicialmente aparelhadas com serra circular de bancada e desengrosso, e entao os esquadrejamentos criticos efetuados manualmente, com prancha de esquadrejar (shooting board) e, nas emendas, formoes. Mr. Schwarz faz continuada, insistente campanha pelo uso de cola animal, por suas muito boas razoes. Eu, por minhas muito boas razoes, prefiro cola PVA.

Ate o momento de publicar esta postagem, tenho ja todas as pecas de madeira dimensionadas e a carcaca montada e colada...

Todas as pecas ja dimensionadas

A carcaca ja colada

Fundo, tampa (com tira de cedro, hehe) e sarrafos

Uma, mm, montagem seca

Os proximos passos, e' a lamentavel realidade, irao demandar inclusive a participacao do nosso agilissimo servico de Correios — com o que, nao tenho a menor ideia de quando poderei continuar. Mas... quem tem pressa?

De todo modo, tao logo haja progressos estarei mais uma vez aqui, nesse mesmo batcanal.


sábado, 24 de setembro de 2016

Armario de fim de inverno — a carcaca

(Clique nas imagens para ve-las em maior resolucao.)

Uma vez seca a colagem dos paineis laterais, por descargo de consciencia e porque imagino o movel va receber alguns consideraveis maus tratos no seu futuro dia a dia, optei por reforcar as emendas aplicando-lhes um longo parafuso desde a lateral. E entao cobrindo com um tampao de cedro rosa a cabeca dos parafusos, imitando uma cavilha, porque na minha estranha religiao moveis que usam parafusos estruturais nao podem mostrar tais parafusos, hehe.

Formando a caixa

O passo seguinte foi cortar de uma prancha de pinho (araucaria) a base e a prateleira central. A base foi fixada `as laterais com doze parafusos, seis em cada lado, e a prateleira foi encaixada em um sulco aberto com dado blade nas laterais e entao fixada com quatro parafusos de cada lado, dois em cada coluna. Nenhuma cola, e as cabecas dos parafusos foram igualmente cobertas com tampao de cedro rosa.



Baseado no principio (religioso?) de testar fazer o que dizem nao se faz, optei por deixar o 'lado ruim' das laterais, onde as pranchas estao repletas de 'defeitos', virado para fora e o 'lado bom', com as laminas de cedro gaucho praticamente intactas, para o interior do movel. A ideia fundamental, claro, sendo que ao inves de tentar esconder, disfarcar as inumeras imperfeicoes dos lenhos colhidos da 'sucata', e' bem mais honesto deixar essas imperfeicoes absolutamente expostas, no 'estilo' que resolvi chamar de rustico rude — e ver com que jeito a coisa vai ficar. (Enquanto, evidentemente, a preocupacao basica e' que o armarinho seja absolutamente resistente, duravel e, se necessario, passivel de ser consertado, retocado, arrumado, etc., se e quando porventura surja tal necessidade.)

Neste momento no entanto e' muito possivel, provavel mesmo, algum de meus sete fieis leitores, mais miudeiro, com toda a propriedade esteja indagando: "Mas o que uma prancha de pinho de 30cm de largura esta fazendo na sucata?" Assim, o': O proprietario da madeireira que mais frequento —sabendo bem que estou longe de ser perito, mas tambem nao sou um total idiota quanto a conhecer madeiras, e que por alguma razao eu procuro selecionar taboas com nos, grana revessa, desenhos e tal ao inves das taboas bem regulares que a maioria de seus clientes prefere — me ofereceu essa prancha por um preco especial, com consideravel desconto. Por que razao? Porque a prancha inclui a medula, o que os Grandes Irmaos chamam pith, o centro de crescimento da tora; e nao apenas madeira com medula tende a trabalhar, empenar de tudo quanto e' jeito, como a medula e' um lenho esponjoso, fragil, e extremamente vulneravel a organismos xilofagos.

No centro da taboa, a medula

No entanto, apesar desses, mm, inconvenientes, a zona da medula apresenta usualmente uns desenhos e coloracoes interessantes e, sim, sob certas condicoes pode-se contornar seus piores problemas. Por isso — e pelo preco, claro — fiquei com a taboa, mas a deixei meio separada, na porta da sucata, digamos assim.

Os pedacos que cortei para fazer a base e a prateleira, como se ve nas imagens abaixo e como era de se esperar, apresentaram seus problemas. A parte que virou a prateleira (`a esquerda) apresentava uma boa area atacada por broca, o que resolvi com a medida geral de aplicar Jimo® Cupim em todo o movel e, no especifico, por entupir os furos com massa de serragem de pinho e cola. A parte que foi para a base (na direita), alem de uma certa descoloracao com fungos escuros, tinha alguma separacao em um veio (o mais escuro e avermelhado, no centro) e um par de rachaduras, o que tratei com cianoacrilato.




Ja as colunas dos paineis laterais, foram cortadas de um resto de louro freijo com defeitos: casca, brancal, manchas e algumas rachaduras nas extremidades. As rachaduras, como se ve na imagem `a direita, tambem foram tratadas com cianoacrilato; os demais defeitos... fazem parte do estilo rustico rude, hehe.



O proximo passo foi colocar o fundo.

Primeiramente coloquei na parte superior o conjunto para um encaixe em faca (ou encaixe frances), serrado de uma ripinha de freijo. Como no entanto o parafusamento necessitou ser feito muito na borda da coluna do painel lateral, resolvi reforcar colocando por cima, parafusado no topo das colunas, uma ripa de pinho. Colhida, claro, na sucata onde estava pelas razoes que me parecem obvias na imagem da direita.


O fundo propriamente foi feito com outro resto do compensado de cedro gaucho, umas taboas de louro freijo da 'sucata' (por curtas, manchadas e com brancal) e um resto de compensado naval todo manchado de fungos pretos. As pecas foram todas fixadas com parafusos; como na parte de tras do movel, contra a parede, os parafusos nao ficarao visiveis, nao foi preciso oculta-los (o estilo rustico rude e' rigido, mas condescendente, hehe). Aquela ripinha la em baixo, obviamente da sucata, serve para manter o armario no prumo quando for para a parede.



Um ultimo toque foi colar umas laminas finas de cedro rosa para cobrir os topos das laterais no alto do movel. Sim, vejam voces, o estilo rustico rude ate pode ser considerado feio. Mas nao pode ser guenzo, nao pode ser fragil e, principalmente, nao pode ser desleixado, oras...

Ahi, mais umas aplicacoes com as lixadeiras onde considerado necessario, sopracao e aplicacao de veneno, marron escuro no compartimento inferior, incolor no resto tudo.




E com isso, acho, a carcaca esta completada...


terça-feira, 20 de setembro de 2016

Armario de fim de inverno

Com um dos invernos mais complicados, mais chatos que o velho Pedro conseguiu aviar chegando (aparentemente; nunca se sabe...) ao fim, hora de tirar o po das maquinas. Ou, melhor, hora de fazer po com as maquinas, hehe...

Para retomar a embocadura, optei por executar um projetozinho simples para minha, mm, lavanderia: um armario onde armazenar sabao, amaciante, essas coisas, de forma a poder acessa-las sem precisar me abaixar (ja que atualmente eles ficam 'armazenados' no piso).



Adicionalmente, resolvi fazer o tal armario utilizando apenas 'sucata' — restos de (boas) madeiras que estao acumulados pelos cantos. Mais especificamente, resolvi utilizar tanto quanto possivel umas sobras da mesa que desmontei, um produto um dia relativamente comum mas hoje absoluta raridade: compensado de cedro gaucho. Um exemplar tipico, recem saido da 'sucata' esta mostrado ahi na foto `a esquerda (como sempre, clique nas imagens para ve-las em maior resolucao).

Passei algum tempo 'admirando' as pecas do raro compensado, imaginando de que forma poderia integra-lo na idea de movel que estava contemplando. Sim, como nao e' raro, do projeto so tenho a ideia, nenhum plano tracado, esperando que as madeiras me contem de que jeito a coisa vai ser, hehehe — um metodo que aprecio bastante mas que, inegavelmente, consome um bom tempo para desenvolver-se...


Ao final de algum tempo matutando, decidi por fazer uns paineis com o compensado, para serem usados como laterais do tal armario. Catei duas taboinhas de freijo e cortei delas quatro ripas para os lados longos e, de um retalho de cedro rosa, cortei quatro outras ripas para os lados curtos. O passo seguinte foi aparelhar devidamente as ripas nas plainas e, uma vez dimensionadas, abri um rasgo com a dado blade em todas elas. Isso feito, cortei as linguas nas extremidades dos lados curtos e... estavam prontas as molduras para o painel.

As ripas cortadas, aparelhadas e oom o rasgo aberto

As molduras, em montagem seca








O passo seguinte foi tratar o compensado de cedro: remover os pregos, dimensionar as pecas na serra de esquadria, dar uma ajeitada no aspecto geral da coisa, um trabalho para plainas e lixadeiras ate ficar algo minimamente apresentavel. Ajustar a espessura para entrar com leve folga nos rasgos da moldura, enfiar as pecas nos 'trilhos' e verificar as montagens secas dos paineis.

O lado 'bom' da montagem seca

O lado 'ruim' da montagem seca
As tiras de compensado estavam originalmente coladas e pregadas e, ao serem removidas, evidente que a parte colada sofreu um certo, mm, esfacelamento. Aplicado o pseudoacabamento com lixadeiras, um lado ficou relativamente apresentavel — o lado bom — enquanto que o lado esfacelado, o ruim, ficou parecendo uma colcha de retalhos.

Confirmado com a montagem seca o dimensionamento correto das pecas, foi feita a colagem da moldura com as pecas do painel apenas encaixadas, sem cola.



Observando os paineis prontos nos grampos, enquanto ficava pensando em possiveis retoques, confesso que ainda nao decidi qual lado dos paineis sera o interno e qual o externo, o bom ou o ruim.

Quando tirar os grampos vou ter que dar uma molhada neles para ver com que cara vao ficar antes de decidir. Mas, por hoje, e' por aqui que ficamos...


quinta-feira, 25 de agosto de 2016

Chorando a resina derramada





Algumas madeiras oleosas tem a propriedade de, mais acentuadamente quando verdes mas frequentemente tambem depois de secas, extravasar resinas em sua superficie, espontaneamente ou induzidas por causas externas, como por exemplo variacoes de temperatura.



Embora esses extravasamentos em tese possam ocorrer em qualquer area na superficie do lenho de essencias propensas ao fenomeno, costumam ser muito mais frequentes e mais pronunciados nas areas onde ocorram nos.





Embora em madeiras aparelhadas a aplicacao de acabamentos como lacas, tintas, vernizes, etc., possa reduzir marcadamente ou mesmo evitar totalmente um extravasamento ao ponto de ocasionar escorrimentos como nas duas fotos acima, nao e' incomum que um derrame de resina, mesmo ocorrendo sob a pelicula de um acabamento, acabe por produzir alteracoes, descolorimentos, manchas capazes de afetar negativamente o aspecto do acabamento...



Ha relatos de diversas maneiras de tentar-se manter a resina aprisionada no interior das madeiras para evitar possa 'contagiar' os acabamentos, incluindo aplicacao de massas, resinas sinteticas, primers, selantes, etc. Embora varios desses produtos sejam capazes de efetivamente lacrar a superficie das madeiras impedindo, tanto a saida de resinas, quanto a absorcao de qualquer contaminante pelos lenhos, em sua imensa maioria eles sao opacos, ou seja, tornam praticamente mandatorio o acabamento final com tinta.



Particularmente, eu nao gosto de madeira pintada. Para o meu gosto, qualquer madeira oferece naturalmente uma superficie muito mais rica, incomparavelmente mais atraente e agradavel aos olhos do que a mais refinada pintura jamais sera capaz.

E embora eu frequentemente tenha utilizado essencias sabidamente notaveis por nao raro produzirem derramamento de resina — como pinus, eucalipto, pinho, cedros, etc. — e tenha sempre lhes aplicado acabamentos translucidos, nunca tive problemas como manchas, descascamentos, descolorimentos. Nada. Isso porque incluo praticamente sempre nos diferentes acabamentos que emprego um passo crucial; a aplicacao de no minimo duas mas usualmente varias demaos de um selador eficientissimo e quase transparente: a goma laca.



Afora todas as suas outras incontaveis qualidades, a capacidade dessa substancia empregada ha milenios no trato e conservacao das madeiras de, alem de fixar-se com rara tenacidade `as fibras dos lenhos, ser repelente aos oleos a torna, entre outras coisas, um selador perfeito. E nao sou so eu que digo: a literatura e inumeros relatos Rede afora me apoiam e ecoam.

E ja que estou dizendo, digo mais: Tanto quanto eu vejo, todos os outros acabamentos podem faltar no arsenal de quem lide com madeira. Essenciais, absolutamente indispensaveis, so dois: goma laca e uma boa cera.

terça-feira, 9 de agosto de 2016

Cera microcristalina - uso em madeira

Alem do uso como protetor para superficies metalicas com testes e observacoes ainda em curso, examinei tambem o emprego da cera microcristalina — que doravante vou chamar microcera — para acabamento em madeiras, na formulacao relatada nas postagens imediatamente anteriores a esta (3 partes de parafina microcristalina e 1 parte de cera de carnauba)...

O teste consistiu em, ao mesmo tempo em que as estava aplicando na barra de aco, aplica-las tambem em um pedaco que sobrara de um painel de cedro rosa e cedro gaucho; no segmento central de cedro rosa o produto importado, a Renaissance Wax (RW) e, em parte dos segmentos laterais de cedro gaucho, a microcera.

A imagem acima, tomada logo apos a aplicacao das ceras mostra bem as areas onde foi aplicada a microcera, pelo escurecimento provocado pelo solvente. Apos secar, tanto a microcera como a RW praticamente nao alteram em nada a coloracao das madeiras.

Note-se, tambem em madeira a aplicacao da RW e' muito mais simples: basta aplicar uma camada tao fina quanto possivel e, em seguida, remover o excesso com um pano limpo. A microcera necessita aguardar uns 15-20 minutos de secagem para remover o excesso, com pano ou, como foi o caso, com escova.


Como eu ja havia sido informado por minhas pesquisas sobre a RW, ela apresenta um serio inconveniente ao ser usada como acabamento em madeira, e que fica evidente na imagem `a esquerda (clique nas imagens para amplia-las):


A RW penetra bem e da bom preenchimento dos espacos dos veios mas, nas depressoes, permanece branca e opaca apos secar, com evidente prejuizo estetico do visual do lenho. Por isso, seu uso em moveis e demais objetos de madeira e' recomendado apenas em superficies ja acabadas, onde os veios ja estao preenchidos.




Ja a microcera, como mostra a imagem `a direita, apesar do 'inconveniente' da aplicacao um pouco mais trabalhosa e demorada, resulta totalmente translucida depois de seca, sem produzir quaisquer manchas.



Como mostram as imagens abaixo, ambas as ceras mostraram-se muito eficientes em impermeabilizar a madeira, com a microcera mostrando um acabamento nitidamente com maior brilho...
















Com essas observacoes, minha conclusao e', em funcao do custo e dos problemas com manchas esbranquicadas, o emprego de RW em madeira deve ser reservado para casos excepcionalissimos.

Ja a microcera parece-me ter bastante promessa e, independente de seu uso em metais, certamente pretendo inclui-la em meu arsenal de acabamentos.

Ate para testar a eficiencia do emprego da microcera como acabamento exclusivo, peguei um naco de cedro rosa na sucata geral e em um lado lixei sua extremidade ate G220. Entao, empregando uma formulacao de microcera com um pouco mais de solvente de forma a deixa-la mais pastosa do que a empregada nos metais, apliquei-a com pano na area lixada. Aguardei 15-20 minutos e removi o excesso com escova de sapatos. Uma hora depois aproximadamente, dei um polimento inicial com uma flanela e entao com um bone de la girado por uma furadeira manual a bateria...


Esse ai acima entao, o resultado de uma unica demao aplicada diretamente sobre a madeira lixada e crua. Alem do brilho acetinado, o que mais me impressionou foi a textura sedosa do acabamento.

As duas marcas circulares apontadas pela seta amarela resultaram de eu tentar, com forca suficiente para 'machucar' o lenho, usar as unhas  para remover e/ou arranhar o acabamento no dia seguinte `a aplicacao. Adesividade e resistencia muito boas, para o meu gosto.

Como disse, tem promessa...


quinta-feira, 21 de julho de 2016

Madeira pasmada

Com o clima do jeito que o velho Pedro o tem distribuido aqui para a capital do Continente que patroniza, somado a um certo cansaco pelo praticamente um ano e meio ininterrupto produzindo moveis para a casa, o fato e' que as minhas atividades com madeira arrefeceram ao quase parando neste ultimo par de semanas e, por consequencia, da mesma forma minha inspiracao para postar aqui no blog...

Todavia, por esses dias uma conversacao no blog Madeira! rendeu, por uma colateral, falar-se sobre madeiras pasmadas — e resolvi aproveitar o mote para abordar o tema aqui.

Chama-se pasmada a madeira — usualmente clara ou brancal de madeira escura — que no inicio de sua decomposicao e' infestada por certos fungos que lhe ocasionam o surgimento de tracos irregulares e/ou manchas de cor escura.

Meu primeiro contato com madeira pasmada deu-se quando um pe de amoreira do meu patio caiu com uma ventania e, gostando da cor amarela do cerne, resolvi aproveitar o lenho. (Um dos aproveitamentos sendo essa caixa retratada nas imagens ahi acima.) Nunca tinha visto antes nada parecido e julguei tratar-se aquilo do aspecto normal do brancal de amoreira. Foi mostrar as pecas que tinha feito e comentar sobre a peculiaridade das manchas e riscos do brancal, e da Rede e ao vivo logo veio a informacao do que de fato se tratava tal peculiaridade.

E, inclusive, a informacao do nome em ingles da, mm, peculiaridade: spalted wood.

Armado de tais informacoes o curioso aqui nao poderia, claro, deixar de consultar o Tio Gu...

Para inicio do papo, e justificando a inclusao do termo em ingles aqui nessa conversa, obtive nova confirmacao do que ja estava careca de saber — e que justifica eu defender a tese de que o melhor curso de marcenaria que se pode fazer e' um curso de ingles. O que procurei ilustrar na imagem abaixo: a porcao de cima o resultado de uma consulta por imagens ao Tio Gu pela string "madeira pasmada", a porcao de baixo com a string "spalted wood".


Enquanto a busca em portugues mostra apenas meia duzia de imagens de objetos feitos de madeira pasmada, a busca em ingles mostra 100% de imagens de spalted wood. Desnecessario dizer, na busca por texto, ou video, ou... a historia e' a mesma.

Afora os detalhes tecnicos relativamente fartos disponiveis na cornucopia de informacoes mantidas pelo Tio Gu sobre o tema, um detalhe chamou minha atencao, por curioso. Tanto em portugues como em ingles, a origem da expressao utilizada para apontar essa caracteristica e' imprecisa. Existe em ingles o verbo spalt e o adjetivo spalted, como em portugues existe o verbo pasmar, e o substantivo pasmado. Mas... nem um e' traducao do outro, como as definicoes dicionarizadas dos termos nos dois idiomas nao aponta o uso do conceito aplicado `a citada infestacao das madeiras.

Aprofundando as conversas com o Tio, entre as varias possiveis explicacoes sobre a origem do termo — e eu gosto de ficar sabendo a origem dos termos porque melhora meu entendimento do idioma e porque facilita meu esclerosado separador de orelhas lembrar-se deles, hehe — as que me pareceram mais acuradas sao as seguintes:

Em ingles, o termo spalt, entre varias outras coisas, e' empregado (embora nao dicionarizado) para um tempero de mesa muito comum deles, mistura de sal marinho e pimenta do reino preta moidos, dito spiced salt (sal picante). Como e' tao comum nA Matriz o termo spiced salt foi contraido, virou spalt. Imagino a imagem abaixo — descaradamente chupada de uma postagem de meu amigo Adenilson la no forum Madeira! — lembre bem saleiros cheio de mistura de sal e pimenta preta moidos, voces nao acham?



Ja em portugues, uma das acepcoes (a menos usada) do termo "pasmado" nos dicionarios e'

  • 4 pau ou mourão fincado que resta depois do desaparecimento de uma porteira

Nao e' dificil imaginar a madeira desses pasmados estivesse frequentemente infestada por fungos, como tambem me parece verossimil supor o que era provavelmente chamado de "madeira de pasmado" virasse mais simplesmente... madeira pasmada.


De qualquer maneira, independente de consideracoes botanicas, fitopatologicas, irritantes tecnicismos, filologias, etimologias, essas estopadas todas, o que eu acho importante mesmo e', se a gente tiver a sorte de encontrar pelas quebradas alguma madeira pasmada... pega-la logo, guarda-la com carinho para um dia extrair dela a indiscritivel beleza com que so ela nos presenteia...




domingo, 3 de julho de 2016

Madeiras vagabundas - revisitando

La bem no inicio das postagens deste blog eu comentava de como havia optado por trabalhar com algumas madeiras ditas vagabundas — pinus, eucalipto, cedrinho, etc. Passados ja varios anos, a experiencia demonstra essas tais madeiras vagabundas, tenham la as limitacoes que tem, estao longe de, como muitos apregoam, ser indesejaveis, inuteis no emprego da pratica de marcenaria, servindo apenas para uso temporario em carpintaria, e olhe la...

Afora varios dos moveis que construi ha tempos com tais madeiras e que hoje nada, absolutamente nada, mostram da passagem dos anos, constitui sem querer uma testemunha solida...


 Esses restos mostrados ahi nas imagens ao lado (clique nelas para ve-las em maior resolucao) sao o que sobrou do prototipo da replica de uma cadeira de espaldar baixo do Sam Maloof, e cuja construcao foi relatada aqui mesmo, la por dezembro de 2011.

Quando encerrei a construcao do prototipo e parti para construir a versao final da cadeira, as pecas em pinus foram simplesmente deixadas de lado, sem qualquer acabamento ou cuidados de qualquer especie. Esses restos especificamente, o assento e os pes dianteiros, eu acabei utilizando para fazer uma plataforma onde subir, ja nao me lembro mais para que. Quando acabou sua utilidade, foram colocados ahi onde foram fotografados, inteiramente expostos `a intemperie, tomando sol, chuva, ventos, calor e frio, por mais de quatro anos.



Ha claros, evidentes sinais da passagem do tempo. Na cor cinza, caracteristica de todas madeiras oxidadas, algumas fissuras, algum mofo — mas o lenho propriamente esta integro, e ficaria como novo se devidamente tratado. Enquanto isso, a cola epoxi bicomponente da Redelease falhou, um dos parafusos que fixava um braco corroeu-se.

Mas o vagabundissimo pinus, afora o mofo na parte em contato com o piso, ate agora nao foi tocado por nenhum organismo xilofago: nem podridao, nem cupins, nem brocas. Como disse, repito: o lenho sem qualquer protecao esta integro, perfeitamente recuperavel sob a superficie oxidada.



O mesmo nao pode ser dito de uma outra madeira da turma dos vagabundos. Dois tocos de eucalipto que utilizei inicialmente como picador e depois, quando deixei de cortar lenha a machado, como suporte para plantas, esses mostram-se muito, muito mais afetados pelo tempo e os elementos.

Como se ve nas imagens acima, o toco menor `a esquerda foi tao carcomido que acabou abrindo-se espontaneamente ao meio, tendo agora como unica serventia alimentar a lareira. Ja o outro toco `a direita, bem maior, com uns 50-60cm de diametro, ainda resiste mas mostra indisfacaveis sinais de ataque por diversos batalhoes de xilofagos prenunciando nao passarao muitos anos antes de a bromelia que sustenta necessitar outro suporte.

Nao tenho como precisar a idade desses tocos, ate porque quando os trouxe ja estavam bem secos e acinzentados.

De qualquer modo achei valia o registro de como essas essencias usualmente tao desprezadas estao longe de ser tao pereciveis como apregoado. E, sendo bem mais faceis de ser encontradas e entao custando bem menos do que suas parentes mais 'nobres', essas madeiras vagabundas sao muito boa materia prima, e nao apenas para aprendizado e testes, mas — pelo menos na minha sempre desconsideravel opiniao — capazes de oferecer substrato muito melhor estruturado e bem mais duravel do que as chapas sinteticas usualmente empregadas na construcao de moveis.


sexta-feira, 24 de junho de 2016

Geladeira sem luz - novos passos, de formiga

(Como sempre, clique nas imagens para ve-las em maior resolucao.)


Frente
Fundos

Com o (muito) vagar determinado pelas condicoes da estacao e da minha lastimavel coluna, a construcao da imitacao de uma geladeira sem luz vai avancando.

O movel recebeu seu tampo formado por cinco ripas de cedro gaucho (brancal), deixando aberto um amplo espaco a ser fechado com uma tampa em alcapao. Na parte traseira, recebeu ainda uma travessa fixa com pocket screws paralela `a da frente, para apoio da prateleira superior que foi fixada apenas por colagem nas travessas. As travessas do tampo foram igualmente coladas sem encaixes (utilizando cola PUR, porque com o frio as colas de PVA ficam inconfiaveis), recebendo apos a cola seca reforco com cavilhas.

Nas tres imagens abaixo, detalhes da montagem do tampo, bem visiveis o escorrimento e os restos da cola expansiva (que obrigarao a adicionar mais uma inescapavel etapa `a, sempre penosa, lixacao futura).



Quando a cola secou e o grosso de excessos e escorrimentos foi removido, os bordos foram inicialmente regularizados com tupia de mao e a seguir, com a mesma ferramenta com outra fresa, arredondados.





O passo seguinte foi construir a tampa do alcapao e a porta superior da frente, a primeira cortada de um painel feito com uma colagem de cedro gaucho e a ultima igualmente de uma colagem de cedro rosa.



Nas imagens ve-se, na da esquerda `a esquerda (que lingua, a nossa!), acima a tampa do alcapao e logo abaixo a porta superior; no meio o compensado do fundo do movel e entao, na extrema direita, a prateleira inferior. Na imagem `a direita, a tampa do alcapao e o topo do movel, visiveis as cavilhas que reforcam a colagem.
















Na imagem `a direita pode-se ver a tampa e a porta nos seus lugares, tudo evidentemente ainda muito, muito longe de estar acabado.



A unica peca estrutural que ainda resta construir e' a porta inferior que, ate prova em contrario, tambem sera em cedro rosa.


- ooOoo -


A demonstrar o ritmo de caramujo com que a obra esta sendo levada: Se a coisa fosse para ser corrida imagino poderia ficar pronta para os acabamentos liquidos e pastosos em talvez meio dia. Se fosse no ritmo normal, com folga uns tres dias... Estou imaginando de fato vai levar uma semana ou uns 9 dias para chegar-se a concluir o lixamento fino geral. Se o implicante do velho Pedro nao inventar de chover, claro.

Mas... Quem tem pressa?

Pra que andar ligeiro?