sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Falando em desafios

Com a possivel excecao de lixar (e mesmo ahi aprecio muito os resultados, se deploro a monotonia dessa disciplina), acho que aprecio tudo o que se pratica em marcenaria. Uso de maquinas, uso de ferramentas manuais, improvisacao de ferramentas, criacao de jigs, o cheiro, as texturas, de algum jeito em tudo ha encantos, atrativos. Sem falar, claro, nos resultados, a transformacao de uma ideia em algo solido, capaz de cumprir uma funcao enquanto agrada o senso de estetica. Mas se gosto de praticamente tudo, operacoes com tupia e efetuar encaixes sao, para meu gosto, as cerejas do bolo, o plus non ultra, la creme da la creme...

Consequencia direta de meu gosto, aprecio nos artistas e artesaos da marcenaria justamente os que enfatizam o que mais aprecio na execucao de obras em ressonancia com meu conceito de belo e, por isso, minha predilecao pelas criacoes dos mestres japoneses e suas ultraprecisas, eficientissimas, intrincadas e belissimas ensambladuras (mesmo quando para todos os efeitos invisiveis na obra pronta, hehe) e, na moderna marcenaria ocidental, os mestres do norte da Europa, Finlandia, Noruega, Dinamarca, com suas linhas enxutas, fluentes, sensuais, em contraste com o arido "cubismo" que, em funcao do uso intensivo de paineis, parece contaminar tudo o que se constroi em madeira e amadeirados aqui por pindorama (excetuando, claro, as raras e honrosas excecoes).


Mas sabidamente as coisas sao travessas, implicantes, nao respeitam nunca as regras que criamos. Apreciadores de loiras acabam vivendo vida inteira com uma morena. Virtuoses do violao classico acabam mesmo no contrabaixo eletrico em banda pop. Bem assim, o marceneiro cujas criacoes mais aprecio na verdade nao teve nenhum contato, nem com a escola oriental, nem com os europeus do norte em seu aprendizado. Na verdade nao teve contato com ninguem, nenhuma escola, mas aprendeu sozinho `a custa de nada mais do que seguir o que lhe parecia ser adequado. Obviamente com o passar do tempo veio eventualmente a se informar e a adotar ensinamentos desse e daquele estilo aqui e ali em sua obra, mas suas criacoes foram sempre inconfundiveis, seu estilo unico.




Nao que seja a melhor ou a mais bela, penso eu, de suas criacoes. Mas a cadeira de balanco foi certamente o movel mais famoso ideado por Sam Maloof. Varias delas estao hoje adornando a casa de nomes muitissimo famosos, em diversos museus dA Matriz e de alguns outros paises, e seu preco no mercado hoje arranca em varias dezenas, quando nao centenas de milhares de dolares.

Mas o que me atrai mesmo nelas... sao as emendas! Ao contrario da maioria dos projetos, nao so nenhum esforco foi feito para oculta-las como, ao contrario, elas sao clara, nitidamente realcadas. E que emendas sao essas que ao contrario da maioria — que acabam enfraquecidas, afrouxadas pelo tempo e pelo inexoravel, inevitavel "trabalho" da madeira em se contrair e expandir — tiram proveito justamente desse interminavel 'trabalho' do lenho. Sao tao notaveis tais emendas que acabaram batizadas com o nome de seu criador: the Maloof joint, ou, a emenda Maloof.

Para quem nao conheca, nem as emendas, nem a cadeira, mas tenha curiosidade, apresento um link — http://thecraftsmanspath.com/?s=Sculpted%20Rocking%20Chair — (em ingles, como infeliz e quase sempre inescapavelmente e' a regra) onde um blogueiro dA Matriz relata, em varias postagens, de seu exercicio em emular o mestre. E de onde "emprestei" as imagens abaixo, evidenciando alguns aspectos de como sao efetuadas as emendas Maloof:





Na verdade aprecio tanto, acho tao inacreditavelmente bem boladas essas emendas que estou criando coragem para faze-las, emprega-las em um movel. Nao, nao em uma cadeira de balanco, pelo menos nao por ora, mas em um projeto um pouco menos complexo. Ja sai `a caca de madeiras apropriadas e de algumas ferramentas e acessorios que me parecem necessarios.

Se porventura algum de meus seis fieis leitores se interessar tambem em tentar aprender a construir e empregar essas emendas, pretendo apresentar a ideia como um Desafio no forum Madeira!, pensando em unir esforcos e, principalmente, ideias para a execucao da tecnica.

Vamos ver no que vai dar...

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segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Acabado

Encerrando enfim o tedioso, arrastado episodio da reforma das tres cadeiras, relato que o acabamento com goma laca e cera progrediu inteiramente dentro dos conformes, sem quaisquer imprevistos. As tres cadeiras finalmente abandonaram a 'oficina' e retornaram para o redor da mesa de jantar:


(Como da para reparar ainda restam duas cadeiras passiveis de serem reformadas para o novo design, mas pelo menos por ora nao tenho intencao de agredi-las: essa coisa de fazer varias pecas iguais realmente nao e' meu chao...)

Repito que, para quebrar um pouco a monotonia, pelo menos os danos ocasionados pelo traumatico desmonte que inflingi `as pobres cadeiras obviamente nao foram os mesmos para todas, e o processo de reparos teve de necessariamente ser individualizado. Utilizando tecnicas de cirurgia plastica e a sabedoria felina (cirurgioes plasticos procuram ocultar as cicatrizes colocando-as onde nao sao visiveis, e os gatos efetuam a conhecida manobra com areia depois da, mm, "obra") procurei na medida do possivel ocultar ou disfarcar os erros e defeitos. Sem querer aborrecer meus fieis seis leitores com riqueza de minucias de detalhezinhos inteiramente superfluos, apenas dois exemplos:


Alguns problemas infelizmente nao houve jeito de disfarcar e os reparos restaram absolutamente evidentes.




No entanto para a maioria dos danos houve alguma manobra possivel para reduzir-lhes ou ocultar totalmente a visibilidade. Por exemplo, no caso do encosto ahi `a direita, a lasca arrancada do pilar direito da cadeira foi reposta por uma 'invasao' do encosto, como pode ser notado pelo 'dente' que se formou na parte de baixo do encaixe da direita, que nao existe `a esquerda — nem, alias, em nenhuma das outras cadeiras.

Reparando bem, olhos criticos com toda a certeza nao terao quaisquer dificuldades em encontrar claras evidencias de varios defeitos em qualquer das cadeiras. Nao se discute. Mas para olhos leigos, desatentos aos detalhes, penso na maioria os disfarces ficaram ate efetivos. E depois, eu nao saberia fazer nada melhor, mesmo...

O mais importante, no entanto, e' que independente do visual a funcao certamente melhorou e o novo design resulta em muito mais conforto no uso das cadeiras.

E, vamos e convenhamos, nao sao exatamente os olhos os orgaos da nossa anatomia que devem julgar uma cadeira, nao e' mesmo?

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quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Despacito, pero cumplidor...

ALELUIA!

Mesmo mantendo a marcha lenta, no vagar que meus anos me cobram, consegui afinal terminar a tediosa, irritantemente repetitiva e aborrecidamente cansativa funcao de lixar as tao decantadas cadeiras. Envenenadas com Jimo Cupim como convem, ahi estao elas ja aguardando a primeira demao de goma laca — envernizamento que pretendo iniciar em dois dias, prazo para garantir que, tanto o veneno tenha secado bem, como minhas estruturas organicas internas nao reclamem muito dos esforcos com que as torturo:



E entao, para dar uma palida ideia da polvadeira ocasionada, uma visao assustadora: esse batucador de teclas que vos posta flagrado em intervalo dos mencionados finalmentes, utilizando as necessarias protecoes para sobrevir sem maiores danos `a exposicao ao talco de cedro e aos estridores dos motores universais:








E se voces estao achando que esse monte de penduricalhos — respirador, abafador de ruidos, oculos — sao feios... Saibam que estao enganados. Enganadissimos!

Feio mesmo, visao dantesca, seria se os equipamentos nao estivessem ali.

sábado, 19 de novembro de 2011

A passos de formiga, mas com vontade

Outra postagem mais para assegurar a meus seis fieis leitores ainda ha atividades, do que propriamente para mostrar servico. De qualquer maneira a cirurgia do dedo vem cicatrizando nos conformes e a funcao do polegar direito esta recuperada praticamente a 80%, o que permitiu eu mantivesse a vagarosa, lerdissima reforma das cadeiras...




As colagens de montagem foram devidamente concluidas, como tambem a modelagem basica com disco flap dos assentos e encostos (um severo e bem-sucedido teste de meu respirador). Atualmente estou concluindo a fixacao dos reforcos estruturais e imagino em dois dias devo iniciar a modelagem fina e a tao inevitavel quanto desagradavel lide com as lixas.







Cada cadeira sofreu diferentes 'traumas' no desmanche algo brutal a que as submeti, assim e' necessario aplicar uma tecnica especifica de reparos para cada uma na remontagem, o que resultara evidentemente em diferencas nem tao sutis entre cada uma quando finalizadas.


A intencao, sempre sem forcar a maquina para evitar novos, mm, incidentes, e' no maximo ate o final da proxima semana ter concluido a trabalheira com as lixas e conseguir dar inicio `a aplicacao de laca. Vamos ver...



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sábado, 5 de novembro de 2011

De volta, com vagar

Ainda como consequencia da besteira que cometi permitindo `a ansia de terminar a ja tantas vezes decantada cadeira me levar alem da capacidade que meus anos ainda me concedem, acabei por necessitar uma pequena cirurgia na mao direita para corrigir um problema surgido em um tendao do polegar. O que resultou — afinal, nao e' por nada que para a legislacao trabalhista perder um polegar equivale a perder a mao — em total afastamento nao so das atividades da 'oficina' como em impedimento para digitar...

Mas como desde ontem consegui me livrar do curativo que me tolhia os dedos da mao direita, para evitar meus fieis seis leitores possam pensar os tenha abandonado posto este breve relato do, mm, status quo das atividades de marcenaria em casa.

Como tinha mencionado havia iniciado (algo traumaticamente, e' verdade) a reforma de mais tres cadeiras do conjunto da mesa de jantar.



Antes da cirurgia ja havia terminado as colagens para os assentos e encostos, efetuado os reparos basicos nos danos que havia causado na desmontagem dos 'esqueletos', e cortado as juncoes primarias para as tres cadeiras.





O que vem a seguir, como pode ser visto pelas marcacoes a giz ahi ao lado, e' iniciar o desbaste para a moldagem dos assentos e encostos. Fundamentalmente, isso e' feito utilizando um disco flap em uma esmerilhadeira e no momento meu tendao ainda nao suporta o esforco de segurar o peso da ferramenta, portanto essa parte ainda vai ter aguardar talvez um par de semanas para ter inicio.

No entanto, como ontem ja tinha recuperado a liberdade de utilizar a mao direita, liberdade essa limitada apenas pela dor, resolvi tentar avaliar o quanto ja posso fazer e decidi tornear os tarugos que serao utilizados futuramente como principal ponte de apoio dianteiro do assento sobre o 'esqueleto'.



Consegui cortar e tornear os tres tarugos (que futuramente serao seis, cortados ao meio por ocasiao do uso), sem maiores problemas. Um pode ser visto sobre o assento da cadeira isolada, os outros dois sao esses aqui:



Ou seja, nao estou mais totalmente incapacitado. Aleluia!

Mas tambem deu para perceber que tenho que ir devagar, mais devagar ainda, ao pote. Depois de guardar as coisas usadas para fazer os tarugos, fui lavar bem as maos, principalmente a direita e' claro, e trocar o curativo da ferida operatoria. Um dos cantinhos estava umido, tinha 'babado' um pouquinho de sangue.

Mas enfim, pelo menos as novidades eu ja posso contar...

domingo, 23 de outubro de 2011

Reformando em massa

Nao poucas vezes afirmei aqui e alhures, e volto a afirmar: nao sou marceneiro. Sou curioso. A carne e o sangue da pratica da marcenaria (como, alias, vale para praticamente todas as profissoes) e' refinar progressivamente cada projeto, corrigindo aqui, aperfeicoando ali ate consolidar-se no melhor possivel. Eu definitivamente nao tenho paciencia para isso. Eu gosto e' da brincadeira...

Quando, como relatado aqui anteriormente, decidi reformar uma das cadeiras da minha mesa de refeicoes, a ideia me pareceu deveras interessante e, para o meu gosto, o resultado certamente valeu a pena. O que eu nao sabia e' que tinha criado um monstro!

A cadeira reformada ocasiona quase sempre a mesma reacao em quem me visita: primeiro estranham muito o formato e, os sinceros, afirmam peremptoriamente que gostam mais do design original. Ate que sentam em uma e noutra. Ahi comeca o coro: "Mas tu tens que reformar as outras, essa e' muitissimo melhor." Nascido, lavado e enxaguado em preguica, fui sempre arranjando escapatorias, mas recentemente um prolongado combate quase `as vias de fato sobre quem teria ou nao direito de sentar na nova cadeira para uma refeicao levou-me a considerar seriamente e entao partir mesmo para reformar mais tres das cinco cadeiras restantes. Afinal, reza a lei nada mais importante do que paz nas refeicoes, nao e' mesmo? E ahi entra a historia do marceneiro: E' isso que marceneiro faz rotineiramente, varias pecas iguais, o mais iguais possivel. Pois e'...

Tendo ficado vacinado de que nao tenho mais fisico para exercitar as lides na intensidade que gostaria, a coisa ja comeca a ser chata por ter de ir com o freio de mao puxado. Mas tudo bem, fiz cortes e colagens para os tres assentos e tres encostos, devagar, devagarinho, sem maiores problemas alem do tedio e entao parti para desmontar as cadeiras propriamente. A primeira desmontagem correu ate que mais ou menos, mas a segunda e a terceira... minha inexistente paciencia ja tinha ha tempos se convertido em irritacao e o processo resultou — como direi? — algo, mm, traumatico:




Mas bueno, apesar da desgraceira que provoquei nos pobres moveis pelo menos uma vantagem: Servico novo, ter que corrigir os problemas, restaurar as barbaridades. Coisa de louco? Hmm... Pode ser, mas eu prefiro chamar de coisa de curioso, hehehe.

De qualquer maneira, devagar, irritantemente devagarinho, no momento estou tentando ver qual a maneira menos estupida de corrigir as consequencias da minha estupidez:





Em tempo — a menos que hora dessas falte lenha para o churrasco, se e' que voces me entendem — imagino vamos ver em que vai dar essa coisa de curioso se meter a marceneiro...

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domingo, 16 de outubro de 2011

Apreendendo

A ansia de terminar a reforma daquela cadeira que mostrei em postagens anteriores me levou a esquecer que nao tenho mais 20 anos e, estupidamente, me submeti a esforcos mais intensos e, principalmente, bem mais prolongados do que deveria. A natureza nao perdoa aos velhos esses entusiamos, e' notorio. Assim, fui 'presenteado' com diversos sintomas para lembrar-me meus anos frequentemente vao alem do que propoe minha vontade, resultando que tive que reduzir marcadamente frequencia e intensidade dos meus esforcos em todos os niveis, inclusive nas atividades da 'oficina'.








De todo modo, coincidencia oportuna, depois de alguma espera chegou essa encomenda ahi do lado. E apos pouco mais de quatro decadas depois de ter aprendido os rudimentos (e contando, claro, com os inestimaveis prestimos do tio Google e do tio YouTube) tive oportunidade de voltar a me familiarizar com tornear, usando placa de castanhas, de face e de topo. Atividade leve, o maior peso sendo mesmo posicionar no eixo do torno os dois quilos da placa; a unica coisa para acelerar o bobo dentro do peito a adrenalina de voltar a lidar com ferramentas e tecnicas que eu julgava esquecidas mas,comprovou-se, sao daquelas coisas que depois de aprendidas nao se esquece mais...

A verdade e' que essas minhas autoaulas revelaram-se nao apenas nada cansativas, mas um agradabilissimo divertimento. E resultaram algumas pecas. Nada especial com certeza, apenas pecas de treino, mas que me estimularam o bastante para pensar a comecar juntar uns galhos e tocos, nos meus passeios pelos interiores aqui dos pagos...



Mas tudo com calma, com muita calma nessa hora, hehehe. Ate porque, nao posso me esquecer, tem cinco cadeira na fila...

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